País Laico

Um monge budista passeava pelo centro de Jundiaí, quando foi gentilmente abordado por atores diante de um teatro, convidavam os passantes a assistirem de graça ao espetáculo “O Evangelho segundo Jesus, a Rainha do Céu”. O inusitado título chamou a atenção do monge, que apesar de não acreditar em nenhum deus, era um estudioso de crenças religiosas. Resolveu assistir, deve ser muito interessante. O que mais o agradou no espetáculo foi o fato do personagem Jesus ser representado por uma atriz transexual. Sabia que grande parte do povo do planeta comungava a fé cristã, a seu ver, não apenas ilusória, machista. Por que Deus e Jesus, seres abstratos, sempre foram descritos como homens? Entendeu que a novidade da peça tentava recolocar as coisas em seu...

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Asilo

Certa noite, após um jantar em família, falavam por ele em sua presença, decidiam sobre assuntos cuja responsabilidade até então lhe pertencia. Entendeu que estava mesmo próximo do fim. O já combalido ego tentou protestar, mas não por mais de alguns segundos, pois ao contrário dele, o cérebro encontrava uma compensação: não ser mais responsável por nada, fazer o que quiser, não fazer nada, como o Buda sentado embaixo… Entretanto a coisa não era bem assim. Já se encontrava no crepúsculo da vida, o tempo corroía seus músculos, suas carnes. Colocar meias nos pés já era cansativo, correr, nem pensar… Mas depois a coisa foi piorando: come isso, não come aquilo, olha o remédio, toma banho, faz exames, nada de frituras, obedece aos...

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Bloco de Carnaval

Dona Odília assistia ao noticiário televisivo quando se apresentou um bloco de carnaval preparando-se para o grande evento. Encantou-se com o rebolado de um mulato e teve a ideia de criar um bloco de senhoras da pior idade. Primeiro, anunciou na Internet – Apareceram pouco mais de dez candidatas. Ótimo! Isso quer dizer que a ideia não é fruto de senilidade, ou seria? Precisava se munir de coragem para convidar as amigas, temidas por suas línguas viperinas, que não hesitariam um segundo em dizer que ela estava gagá. Valentemente, dona Odília fez os convites. Surpresa, quase todas amigas aceitaram participar da primeira reunião, talvez a última, que ao todo contou com a presença de um bom grupo. De entrada, um chazinho de folhas de coca para animar a...

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A vingança da escrava Isaura

Isaura, meu bem, pode chegar mais pra lá? – Tomou banho ou só fingiu? – Passei até perfume. – Escovou os dentes? – Já. Cheira… Agora posso deitar? – Antes tire esse pijama. Vamos transar um pouco. – Agora, Isaura? É que estou tão cansado, amor, trabalhei oito horas, depois malhei na academia, se você soubesse… – Larga de papo. Vamos ver se essa coisa cresce na mão da mamãe. – Perdão, benzinho, acho que não vou conseguir… – Não é hora de conversa fiada. Se concentra no bagulho! – Amanhã tenho de acordar cedo, por favor, Isaura, me deixe dormir. – Sabe o que eu acho? Que você tem de parar de malhar na academia. Vai acabar brochando de vez. – Mas estou gordo. Se não malhar… – Já disse. Prefiro um...

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Salame

Acalorada, Maria saiu ao relento para refrescar-se, mas não, o calor era interno, brotava do ventre. Então, desnudou-se e soltou o corpo no chão de terra fria. Era uma noite escura.  Ela olhou para o céu, desejosa. Não se sabe se imaginou, sonhou ou viu mesmo um ponto de luz, uma estrela cuja luz crescia em sua direção até delinear-se num corpo de homem nu, pairando no ar com lindas asas translúcidas. Pareceu-lhe extremamente belo, fato que a esquentou ainda mais. – Vim atraído por sua beleza, as curvas… também pela morenice de sua pele, seu desejo clamante… – sussurrava no ouvido dela. Assustada, ela se encolheu, tentando cobrir com as mãos sua intimidade. – Não se assuste, sou do bem. “Abençoada sois vós entre as mulheres,...

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Abandono

Paredes de restos de madeira, plástico e papelão, chão de terra batida, teto de zinco furado por onde feixes de sol invadiam a pobreza. Ela, olho inchado e nariz ainda sangrando, abriu a porta para a policial. Os vizinhos haviam chamado. – Por que a senhora não denunciou ainda o seu marido? Seus vizinhos disseram que você apanha com frequência. ­ A mulher nada respondeu, parecia fraca demais para entabular uma conversação sobre um assunto tão dolorido. – Nós mulheres não podemos mais admitir esse tipo de crime. Temos de ir à luta, denunciar, pedir justiça – continuou a policial. Nisso, começaram a aparecer crianças, antes escondidas no fundo do barraco. Eram cinco ao todo, idades entre 2 e 7 anos, esqueléticas, maltrapilhas, famintas. –...

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