Lavabo

Querida, na igreja, não. – Meus pais exigem. – Não vou me casar com seus pais. – Mas não posso contrariá-los, você sabe. Quer que eles fiquem contra mim? Não se esqueça de que eles pagam minha faculdade. O dinheiro falou alto, ele acabou concordando. No dia do casório, foi ao apartamento onde morariam para verificar se estava tudo bem. Tudo certo. Entrou no lavabo e trancou a porta para experimentar. Aproveitou para urinar. Mas quando quis sair, a porta não abriu, esta maldita fechadura está encrencada. Depois de inúmeras tentativas, desistiu. Sentou-se na bacia, os pensamentos correndo, perderia o próprio casamento. Seria um sinal? Não queria mesmo me casar, ela pressionou. Adiei por anos… Agora ficava livre do vexame daquela...

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Tyson

Minha mãe, poodle de nariz empinado, orgulhosa donzela do sangue francês, enamorou-se do vira-lata vizinho. Cheiravam-se pelos vãos da cerca todas as tardes, mas quando ela começou a exalar aquele perfume estonteante do cio, ele, treinado nas agruras da rua, rompeu a cerca e entrou. Pouco mais de dois meses depois nasci eu, negrinho de pelos encaracolados. O humano que me adotou, batizou-me de Tyson, nome do maior campeão de boxe que já existiu. Nome pesado, pleno de glórias, passei a vida tentando alcançar sua altura. Adorava meu pai humano, enchia-me de mimos. Mesmo sendo eu um mestiço bastardo, toda semana me levava ao pet shop pra me embelezar. Deixava-me dormir no tapete ao lado de sua cama… Numa noite fria, aconchegado ao roupão que ele, de...

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Belle de Jour

Fugindo da ditadura brasileira, Ragnar buscou exílio em Marseille onde atravessou anos de muitas dificuldades. Não foi fácil ficar longe da cidade familiar, sem bens suficientes para sobreviver e sem conhecer bem a língua local. Era como um náufrago numa ilha deserta que pela primeira vez conhecia a fome. Anos de solidão. Os franceses não tratam estrangeiros como iguais. Aceitava qualquer tipo de trabalho, de faxineiro a garçom, e só depois de seis meses, conseguiu a amizade do senhorio da pensão onde vivia. O homem andava desconfiado da própria esposa e lhe fez um estranho pedido. – Ragnar, preciso que siga minha mulher nas escapadas que ela dá. – Sinto muito, mas isso vai contra meus princípios. Sou contra delações, sou a favor da liberdade...

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LOLA

Zorro precisava de uma esposa. Fui ao canil municipal para onde levam os cães capturados nas ruas. Havia mais de vinte deles, sequiosos de um dono, presos num espaço cercado por alambrado. Pulavam na grade, pedindo socorro, talvez intuíssem que se ninguém os tirasse dali dentro de um mês, seriam assassinados. Apenas uma cadela não veio até a grade. Ela se manteve distante, subiu num caixote, olhou para mim de longe e ganiu como quem diz: olha eu aqui. Quando os demais cães se afastaram da grade – talvez por entender que não seriam escolhidos – ela desceu do caixote e veio ao meu encontro, faceira, balançando o rabo, lambeu minha mão. Então, fixou os olhos nos meus – num instante eterno, éramos um. É claro que foi ela a escolhida, ou melhor, a...

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Lei da Selva

Abriu os olhos, alongou-se, saiu ao sol. Lambeu a patinha para lavar a cara, adorava aquela fazenda repleta de quitutes. Nem precisou procurar muito, logo viu um incauto camundongo cruzar o terreiro. Deslizou sorrateira pelo gramado, ocultou-se sob uma folhagem, espreitando o melhor momento. Quando o bichinho parou para cheirar o ar em busca de algum odor agradável, sonhando com alguma sobra de queijo… Zaz! Foi apenas um salto felino, as garras abriram buracos fatais nas costas da presa, que esperneava em vão. Então, Luna voltou pra mim, trazendo o camundongo ainda vivo para que eu o degustasse, como se fosse seu filhote.

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UTI

Estava internado  devido a forte pneumonia que provocou uma parada cardio-respiratória. Durante a morte, não viu túnel, nenhuma luz no fim, nenhum anjo o esperava, mas a habilidade dos médicos, o ressuscitou. Entretanto, foi induzido ao coma por dez dias para suportar as dores – entubação total. As fortes infecções pulmonares provocavam o fenômeno chamado delirium. Para cada situação que ocorria na UTI, na mente ele criava uma fantasia relacionada. Como tentasse arrancar os tubos que lhe davam alimentação, ar e medicações, teve as mãos amarradas. Isso introduziu em seu filme inconsciente uma sequência de cenas de prisão e tortura. Além disso, defecava nas fraldas, mas em sua imaginação, era nas próprias calças. Por isso, onde quer que...

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