País Laico

Um monge budista passeava pelo centro de Jundiaí, quando foi gentilmente abordado por atores diante de um teatro, convidavam os passantes a assistirem de graça ao espetáculo “O Evangelho segundo Jesus, a Rainha do Céu”. O inusitado título chamou a atenção do monge, que apesar de não acreditar em nenhum deus, era um estudioso de crenças religiosas. Resolveu assistir, deve ser muito interessante. O que mais o agradou no espetáculo foi o fato do personagem Jesus ser representado por uma atriz transexual. Sabia que grande parte do povo do planeta comungava a fé cristã, a seu ver, não apenas ilusória, machista. Por que Deus e Jesus, seres abstratos, sempre foram descritos como homens? Entendeu que a novidade da peça tentava recolocar as coisas em seu...

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Lavabo

Querida, na igreja, não. – Meus pais exigem. – Não vou me casar com seus pais. – Mas não posso contrariá-los, você sabe. Quer que eles fiquem contra mim? Não se esqueça de que eles pagam minha faculdade. O dinheiro falou alto, ele acabou concordando. No dia do casório, foi ao apartamento onde morariam para verificar se estava tudo bem. Tudo certo. Entrou no lavabo e trancou a porta para experimentar. Aproveitou para urinar. Mas quando quis sair, a porta não abriu, esta maldita fechadura está encrencada. Depois de inúmeras tentativas, desistiu. Sentou-se na bacia, os pensamentos correndo, perderia o próprio casamento. Seria um sinal? Não queria mesmo me casar, ela pressionou. Adiei por anos… Agora ficava livre do vexame daquela...

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Asilo

Certa noite, após um jantar em família, falavam por ele em sua presença, decidiam sobre assuntos cuja responsabilidade até então lhe pertencia. Entendeu que estava mesmo próximo do fim. O já combalido ego tentou protestar, mas não por mais de alguns segundos, pois ao contrário dele, o cérebro encontrava uma compensação: não ser mais responsável por nada, fazer o que quiser, não fazer nada, como o Buda sentado embaixo… Entretanto a coisa não era bem assim. Já se encontrava no crepúsculo da vida, o tempo corroía seus músculos, suas carnes. Colocar meias nos pés já era cansativo, correr, nem pensar… Mas depois a coisa foi piorando: come isso, não come aquilo, olha o remédio, toma banho, faz exames, nada de frituras, obedece aos...

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Tyson

Minha mãe, poodle de nariz empinado, orgulhosa donzela do sangue francês, enamorou-se do vira-lata vizinho. Cheiravam-se pelos vãos da cerca todas as tardes, mas quando ela começou a exalar aquele perfume estonteante do cio, ele, treinado nas agruras da rua, rompeu a cerca e entrou. Pouco mais de dois meses depois nasci eu, negrinho de pelos encaracolados. O humano que me adotou, batizou-me de Tyson, nome do maior campeão de boxe que já existiu. Nome pesado, pleno de glórias, passei a vida tentando alcançar sua altura. Adorava meu pai humano, enchia-me de mimos. Mesmo sendo eu um mestiço bastardo, toda semana me levava ao pet shop pra me embelezar. Deixava-me dormir no tapete ao lado de sua cama… Numa noite fria, aconchegado ao roupão que ele, de...

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Bloco de Carnaval

Dona Odília assistia ao noticiário televisivo quando se apresentou um bloco de carnaval preparando-se para o grande evento. Encantou-se com o rebolado de um mulato e teve a ideia de criar um bloco de senhoras da pior idade. Primeiro, anunciou na Internet – Apareceram pouco mais de dez candidatas. Ótimo! Isso quer dizer que a ideia não é fruto de senilidade, ou seria? Precisava se munir de coragem para convidar as amigas, temidas por suas línguas viperinas, que não hesitariam um segundo em dizer que ela estava gagá. Valentemente, dona Odília fez os convites. Surpresa, quase todas amigas aceitaram participar da primeira reunião, talvez a última, que ao todo contou com a presença de um bom grupo. De entrada, um chazinho de folhas de coca para animar a...

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