Ecoterrorismo

A

As aulas se reiniciaram em fevereiro. Numa tarde chuvosa, uma van partiu de uma escola particular da Granja Viana, periferia da Grande São Paulo. Era por volta do meio-dia, transportava crianças pequenas. Aqui e ali o veículo parava para alguma descer. Faltava ainda sete delas para serem entregues em suas casas, quando o inesperado aconteceu: um homem caiu bem na frente da van e permaneceu ali inerte, ensopado pela chuva. O motorista conseguiu brecar a tempo de não atropelar a pessoa, desceu às pressas para atendê-lo, talvez desmaiado, talvez morto. 

Surpresa! O homem que estava caído ergueu-se, revolver na mão, deu um empurrão no condutor que viera socorrê-lo e assumiu a direção da van. Partiu em disparada, deixando boquiabertos os que assistiram à cena.

A delegacia mais próxima era dirigida pelo famoso delegado Thales Duran. Sem perda de tempo, mandou que trouxessem para depor o motorista que sofrera o golpe. O homem compareceu à delegacia, nervosíssimo. Chamava-se Severino como a maioria dos nordestinos que vinham para São Paulo.

– Pode descrever o homem que sequestrou a van, seu Severino? – foi logo indagando o delegado.

– Era um homem muito forte. Me deu um empurrão que me jogou no chão – disse Severino.

– O senhor o conhecia?

– Não. Nunca tinha visto.

– Conhecia as crianças que foram sequestradas?

– Sim, eu as transportava todos os dias. 

– Pode nos dizer quais eram os endereços onde as buscava e depois devolvia?

– Todas moravam na Granja Viana, mas a escola fica em São Paulo, nos Jardins. Não sei de cor os endereços. Teria que fazer o trajeto e lembrar de cada lugar.

Todas as casas foram encontradas e os pais, alertados. Cada família foi tomada por extremo desespero. Pouco tempo depois, os pais começam a chegar na delegacia com o intuito de pressionar o delegado para que solucionasse o crime, também para obter informações.

Enquanto os atendia, o delegado Thales Duran recebeu um envelope com remetente anônimo onde estava escrito: veja as crianças. Dentro havia um pen drive. Imediatamente, inseriu o aparelho em seu computador que mostrava uma triste imagem. Ele fez questão que os pais vissem para poderem reconhecer os filhos. A imagem mostrava sete crianças, entre 3 e 5 anos, lado a lado encostadas numa parede, quase todas chorando. Choradeira maior aconteceu entre os pais. Ao fundo das imagens, um grande portão com um símbolo ilegível, desfocado.

– Silêncio, por favor. Há um áudio gravado. Vamos ouvir.

Era uma voz de homem, potente, clara, dicção perfeita. Dizia: “Crianças pobres não comem durante as férias. O governo federal deve decretar que as escolas alimentem as crianças mesmo fora das aulas, senão… A cada semana que demorar para esse decreto ser assinado, matarei um criança. Se assinarem nesta semana, libertarei todas”.

A comoção pública foi intensa. Cada entrevistado que a imprensa abordava fazia questão de concordar com o sequestrador e dizer que o presidente estava obrigado a assinar o tal decreto.

Num país onde a educação era relegada a segundo plano, onde a pouca verba destinada às escolas era roubada no meio do caminho por funcionários do próprio governo ou partidários políticos, a solução da questão não era simples. Primeiro, o governo tinha de aceitar as exigências, e nenhum governo deseja negociar com bandidos ou terroristas explícitos, embora lidem muito com os corruptos da elite. Em segundo lugar, seria necessário aumentar as verbas para educação e contratar novos funcionários para cobrir as férias. Além do mais, dependia da aprovação dos parlamentares, burocracia… 

O delegado Duran liderou a ida de um grupo de pais ao planalto central em Brasília, numa tentativa de convencer o Presidente da República que relutava em atender ao pedido. Apesar de todas as apelações, choros desesperados e a influência do juiz Gilmar Mercado, mais conhecido como bocão, da suprema corte do país, cuja neta estava entre as crianças sequestradas, o Presidente mostrou-se irredutível, mas convocou os ministros da defesa, das forças armadas e da justiça para uma consulta. Em conjunto, os ministros também concluíram que não deviam negociar com bandidos, mas trabalhar para prender o sequestrador antes que o prazo, por ele dado, se esgotasse. Thales Duran continuou encarregado de chefiar os esforços com o apoio dos ministérios.

Mas por onde começar? Não havia pista alguma, a não ser a descrição feita pelo motorista que fora ludibriado, e que teve sua vida invadida pelos investigadores. Entretanto, nenhuma ligação dele com o suposto sequestrador foi encontrada. Desde que fora contratado pela escola para o transporte das crianças, Severino nunca cometera deslize algum…

O prazo que o sequestrador dera, se esgotaria em poucas horas. Thales Duran conseguiu falar com o Presidente para rogar-lhe que assinasse o decreto solicitado. Mas ele estava firme em sua decisão de não negociar com bandidos.

Meia hora depois de vencido o prazo, uma emissora de televisão recebeu um vídeo que divulgou para a estupefacção dos telespectadores de todo o país, imagens terríveis. Primeiro, aparecia uma linda garotinha, a mais nova do grupo, sorrindo ao chupar um picolé. Em seguida, a mesma menina era mostrada deitada, pescoço cortado, sangrando, inerte, provavelmente morta, justamente a netinha do juiz Gilmar Mercado, que ao ver as imagens, teve uma parada cardiorrespiratória e foi internado no hospital militar.

A causa do sequestro era nobre, mas os meios…

A imprensa e o governo precisavam de apontar um bode expiatório, e escolheram o Delegado Thales Duran, acusado de incompetência ao não desvendar o caso a tempo. Chegaram a ameaçá-lo de expulsão da polícia.

Em sua luta para a resolução do caso, e agora pressionado, Thales voltou a Brasília e conseguiu nova audiência com o Presidente. Implorou para que ele assinasse o decreto solicitado, mas este argumentou que não houvera tempo para tomar todas as medidas necessárias para concretizar o decreto. Foi então que o delegado apresentou a solução:

– Senhor Presidente, o sequestrador não pede que o decreto seja executado em uma semana, mas sim, que seja assinado pelo senhor neste prazo. As próximas férias acontecerão somente daqui a 4 meses, tempo suficiente para pôr em prática o decreto. Por ora, basta assinar, para impedir que outras crianças sejam assassinadas. O bandido não brinca, mata.

Depois de muita discussão na cúpula do governo, a proposta do delegado foi aceita. O Presidente assinou o decreto e a imprensa divulgou o fato imediatamente.

No mesmo dia, a polícia foi avisada pelo sequestrador que as crianças tinham sido deixadas, ilesas, na beira da rodovia que conduz à Granja Viana. Entre elas, a menininha, neta do juiz, que parecia ter sido assassinada, mas estava bem viva e alegre por voltar aos braços da mãe. A imagem da menina morta era apenas uma montagem fotográfica.

Quando as férias chegassem, as crianças pobres não passariam fome.

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