O Brilho da Pele

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Ela também era bela, e como o desejo que brotava de seus olhos era aparente, ele não vacilou, sem demora a levou para um motel.

Quando ele se despiu, ela viu a grandeza de seu dote e tremeu. Em pensamento, rezou para que a dor não suplantasse o prazer, e abriu-se. O coito foi longo, ele era um mestre em proporcionar prazer. Ela nunca tinha alcançado um gozo tão prolongado.  Quando o jorro quente a regou por dentro, entendeu que sem aquele ardor jamais poderia viver.

Para ele, o encontro também agradou, teve a oportunidade de punir o ventre dela com golpes intensos de seu falo, como se nela descontasse todos as ofensas raciais que sofrera até tornar-se um ídolo. Mesmo porque ela era dessas mulheres que comprovava as afirmações do famoso jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues: “as mulheres gostam de apanhar durante o coito”.

O matrimônio aconteceu, mas fidelidade não constava no vocabulário dele, sobretudo porque, como ídolo e belo, era constantemente assediado. Ela tudo suportava em troca de noitadas sexuais cada vez mais raras. Entretanto, permaneceram juntos, ela era um porto seguro, financiava sua dispendiosa carreira esportiva, que demandava muitas viagens internacionais.

O destino sabe ser cruel. Numa bela tarde uma mulata adolescente atravessou-lhes o caminho. Ele a viu entrando no ônibus, sua beleza transformava o corredor do veículo numa passarela, delicada como se pisasse em flores, a espargir centelhas de virgindade. Peitinhos pontudos, cintura estreita, traseiro empinado… Ele não podia deixá-la escapar… Além de todas as qualidades que faziam qualquer homem suspirar, ela lembrava sua mãe, na cor da pele e na brancura do sorriso.  Não foi difícil envolvê-la em seus encantos, pois era sua fã desde que o vira na televisão nos jogos olímpicos. Sem pestanejar, dali em diante trocou a loira por ela.

A esposa quase cometeu suicídio quando se inteirou da traição, mas não se deu por vencida. Trocar-me por aquela neguinha? Nem pensar! Primeiro apelou para cirurgias: refez o nariz e os flácidos seios. Do corpo, expeliu as dobras excedentes. De nada adiantou, o deus negro caíra mesmo na teia da menina.

Então, ela apelou para videntes cujas promessas não obtiveram resultado algum. Apelou para umbanda, que nada! Nem macumba logrou sucesso. O tempo corria, ela não conseguia reconduzi-lo ao seu redil. Por fim, decidiu: outros não quero! Ele ou nada! Desde então, abandonou as atrações do mundo, encolheu-se, murchou. Para compensar tamanha contração, células do útero cresceram em demasia, um câncer fulminante…

No velório, ele chorou.

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