Diante do Altar

O

s dias se estendiam longamente, o tempo era súdito da imaginação. Aos seis anos, de tão curiosos, seus olhos pareciam maiores que o corpo, querendo desvendar o que havia por detrás das aparências. Filho de protestantes metodistas, o cristianismo era uma filosofia presente em sua infância. Gostava das histórias bíblicas que seu pai lhe contava para dormir. Preferia as aventuras de José do Egito. Ia à igreja toda semana na escola dominical. Mas ali sentia-se deslocado, prisioneiro de muitas regras. Às vezes, queria rir ao invés de orar. Era como se não pertencesse ao mundo daquelas pessoas grandes. Não é assim que se sentem todas as crianças?

Foi naquele ano que ouviu os adultos comentarem que um rapaz da vizinhança contraíra tuberculose e, com certeza, iria falecer. Com infantil ingenuidade, em secreta oração, pediu diretamente a Deus que fizesse um milagre e salvasse aquela vida. Promessa nenhuma fez, acreditava na generosidade divina.

Na semana seguinte o rapaz melhorou. Voltou a engordar, a sair de casa, e o menino ficou orgulhoso do milagre que atribuiu à sua intervenção junto ao divino. Entretanto, algo lhe dizia que devia manter o fato em segredo, que guardasse o orgulho para si, pois só assim teria um pacto secreto com o ser supremo.

Meses depois, viu o rapaz passando em sua porta. Parecia forte, talvez gordo, talvez pálido… E uma tia que estava ao lado comentou:

– Não é músculo nem gordura. É inchaço. Desta vez ele não escapa!

O rapaz faleceu um mês depois. O menino sentiu uma frustração terrível, uma divisão interior, algo forte demais para uma criança – a primeira decepção com o Grande Pai. Ora se penitenciava pelo atrevimento e presunção de ter pensado que poderia realizar milagres, ora culpava o próprio Deus por sua incompetência. A partir de então começou a desconfiar da bondade divina.

Aos doze anos, já recuperado do trauma espiritual que tivera aos seis, se lhe impunha o destino natural de todo menino metodista: fazer a profissão de fé. Houve um cursinho para decorar as perguntas que teria de responder positivamente – regras de conduta de fé e retidão que o pastor proporia.

Culto de domingo. Ali estava ele diante do altar e da irmandade. Os parentes lotavam a pequena igreja. Eram doze crianças ao redor do altar. O menino ajoelhou-se disposto a deixar suas dúvidas de lado: emocionado, ansioso para entregar seu coração a Jesus, e finalmente, sentir seu amor de uma vez por todas, conforme lhe assegurara o pastor.

Sem aviso prévio, dúvidas cruéis invadiram sua mente, e a cada pergunta do pastor, algo extraordinário acontecia – enquanto sua boca repetia as afirmativas decoradas, sua mente e seu peito diziam: não!

Fingiu até o fim da cerimônia e também depois, na saída, quando todos vieram cumprimentá-lo e desejar-lhe que jamais se afastasse do caminho da retidão. Em suas entranhas, porém, entendeu que a tal retidão não era para ele. Fugiu dali, correndo.

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1 Comentário

  1. Marinho
    3 jan 2020

    Conto autoficcional

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