Fumaça escura

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            O filho se encontrava em Buenos Ayres com seu grupo de teatro. A família, que não o via com bons olhos por ser ele maconheiro e ateu, além de artista, mesmo assim achou que a mãe gostaria de despedir-se dele e o avisaram.

            No dia seguinte, ele chegou e foi direto ao hospital. Quando olhou para ela, teve certeza de que estava à beira do fim, a pele amarela, olheiras cadavéricas, mal falava, odor de morte. Foram dez dias de angustiosa espera, visitas diárias, o sofrimento aumentando nela e nos visitantes. Numa das tardes, ela balbuciou a palavra: incêndio!

– Está delirando – comentou alguém.

O filho olhou pela janela e viu ao longe uma coluna de fumaça escura que denunciava o desastre. Mas como ela soube? De onde estava deitada, não podia ver a fumaça. Talvez parte dela já estivesse fora do corpo e pudesse ver com liberdade… No dia seguinte, irritou-se muito quando seu pai apareceu com um escrivão e uns livros, para que a mãe assinasse. Seria a venda dos imóveis do casal para um parente próximo que os devolveria após a morte dela. Ela foi forçada a se erguer e, tremulamente, assinar uma série de papéis.

– É para evitar um inventário – argumentou o pai.

No fim da tarde, de tanta dor, a mãe já não conseguia gritar, apenas soltou em débil gemido, com muita dificuldade para respirar. Chamaram o médico.

– Doutor, não há como abreviar o sofrimento? – questionou o filho quando o médico chegou.

O Doutor argumentou que se levantassem um pouco o travesseiro ela respiraria melhor, mas poderia morrer engasgada.

– Tenha calma, meu sobrinho, Deus sabe a hora de levá-la – interpelou uma tia, persignando-se.

Quando o doutor saiu, o filho inconformado, girou a manivela da cama que erguia o travesseiro e a mãe faleceu no ato, engasgada no próprio sangue.

– Era isso que você queria, matar sua mãe? – acusou a família.

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