País Laico

Um monge budista passeava pelo centro de Jundiaí, quando foi gentilmente abordado por atores diante de um teatro, convidavam os passantes a assistirem de graça ao espetáculo “O Evangelho segundo Jesus, a Rainha do Céu”.

O inusitado título chamou a atenção do monge, que apesar de não acreditar em nenhum deus, era um estudioso de crenças religiosas. Resolveu assistir, deve ser muito interessante.

O que mais o agradou no espetáculo foi o fato do personagem Jesus ser representado por uma atriz transexual. Sabia que grande parte do povo do planeta comungava a fé cristã, a seu ver, não apenas ilusória, machista. Por que Deus e Jesus, seres abstratos, sempre foram descritos como homens? Entendeu que a novidade da peça tentava recolocar as coisas em seu devido lugar: se há um ente superior, deve ser andrógino, fêmea e macho integrados.

Envolto pelo tema, o monge convidou seus colocas de monastério para assistirem ao espetáculo. Lá se foram eles, alegres, balançando as saias. A alegria durou pouco, na fachada do teatro um cartaz dizia: o espetáculo foi proibido.

Sempre curioso, o monge entrou no teatro aberto para saber o motivo. A primeira pessoa que encontrou foi justo a atriz que fazia o papel de Jesus, olhos vermelhos de chorar, humilhada, mas educada, recebeu o monge. Informou-lhe que uma decisão judicial, tomada pelo juiz Luiz Campos Júnior em caráter de urgência, atendendo ao pedido da advogada Virginia Bolsonaro, quem dera entrada ao processo contra o espetáculo.

– Mas por quê? Achei o espetáculo tão educativo, até trouxe meus amigos.

– O juiz disse que a peça atentava contra a fé cristã, na qual Jesus Cristo não é uma imagem e muito menos um objeto de adoração apenas, mas sim o filho de Deus. Disse ainda que permitir uma peça em que este homem sagrado seja encenado como uma travesti como eu, é uma ofensa ao povo brasileiro.

– Que ironia! – exclamou o monge – Qualquer pessoa, minimamente perceptiva, sabe que um homem que escolhe mais doze homens para viverem juntos no mato…

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