Tyson

Minha mãe, poodle de nariz empinado, orgulhosa donzela do sangue francês, enamorou-se do vira-lata vizinho. Cheiravam-se pelos vãos da cerca todas as tardes, mas quando ela começou a exalar aquele perfume estonteante do cio, ele, treinado nas agruras da rua, rompeu a cerca e entrou. Pouco mais de dois meses depois nasci eu, negrinho de pelos encaracolados. O humano que me adotou, batizou-me de Tyson, nome do maior campeão de boxe que já existiu. Nome pesado, pleno de glórias, passei a vida tentando alcançar sua altura.

Adorava meu pai humano, enchia-me de mimos. Mesmo sendo eu um mestiço bastardo, toda semana me levava ao pet shop pra me embelezar. Deixava-me dormir no tapete ao lado de sua cama…

Numa noite fria, aconchegado ao roupão que ele, de propósito, deixara cair no tapete pra que eu me aquecesse, ouvi um som imprevisto. Vinham da sala, ruídos. Tirei o peso dos passos, baixei o ímpeto curioso do andar e espiei com cuidado: eram dois humanos fuçando nas coisas.

Voltei pro quarto, subi na cama e beijei o rosto do meu pai. Ele acordou, corri pra porta, ele me entendeu. Fomos juntos, ele na frente, é claro. Mas os bandidos já haviam saído pra garagem e tentavam roubar o carro… Aquele carro, não! Naquele carro meu pai me levava a passear, a cabeça pra fora da janela, latindo pros cães da vizinhança, cheirando as ondas da cidade…

Pelo vidro, vimos os bandidos abrirem as portas do carro. Não sei de onde meu pai tirou tanta coragem! Ele deu um murro na persiana de madeira, forte o bastante para atingir e rebentar o vitral da sala. O barulho da persiana em choque com o vidro produziu um som semelhante a um tiro. Apavorados, os bandidos fugiram, largando para trás tudo o que já haviam amealhado.

Embora, em tal episódio meu pai fosse o merecedor de todos os louros, ele até feriu a mão, porém me ergueu em seus braços e disse: “Tyson, meu herói, hoje você fez jus ao seu grande nome. Parabéns! De hoje em diante pode dormir na minha cama.” – Nenhum prazer era comparável.

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