Salto Quebrado

Ponto de ônibus A menina caída, envergonhada, procura o salto do sapato que se partiu – Igual a esse não acho mais. E agora como é que vou me apresentar? Preciso daquele emprego, mãe doente, pai sumido, ai – quis chorar, quis pular no colo de alguém, se aninhar.
De lá vinha um homem, sapato engraxado, terno e gravata surrados, é certo, mesmo assim, elegante como o via sua mãe, olho grudado nos caminhos do filho – Esse ainda vai longe. Esquecida, desavisada de que ele já fizera quarenta, não subira na vida, mas descera. O mesmo que agora vem chegando pela calçada, que a moça ainda caída vê por debaixo, as coxas, o volume do sexo, o peito forte, um rosto sorridente, bigode bem antigo, dentes amarelados de cigarro.
– Já sonhei com isso – murmurou pra si mesma.
– Posso ajudar a mocinha?
Estremeceu, virgem sonhadora, pensamento disparado: faz de mim o que quiser, o que quiser, mas e o sapato?
– Viu meu salto, senhor?
Era esperto o estranho, logo achou e pegou o pedaço que do sapato se soltara.
– Que pena, tão bonito, ele comentou. Posso lhe dar outro se quiser, se me acompanhar num lanche. Tá com fome, num tá?
Prá já, pensou, segurando a língua, considerando a proposta. Fome sim, mas o quê poderia vir depois do lanche? Calor, fogo crescendo nas coxas, imagens de água corrente. Cuidado, repassou, cuidado, repassou a palavra que sua mãe lhe dizia sobre estranhos e o calor.
Então, ele pegou-a pela mão, a menina ainda pequena, tímida, a demora em soltar-lhe a mão…
– Seja o que Deus quiser – disse pra si mesma, faminta, carente de esperança.
– Deixe Deus fora disso, mocinha – brilho forte no olhar que lançava.
Mocinha? Era de menor, quatorze apenas, mas crescidinha, coxas fortes, quadril largo, pronta pro trabalho, dizia a vizinha cafetina sempre que a via passar, tentando aliciá-la.
Tinha achado no lixo o par de sapatos que lhe cabia meio à força, e com salto podia parecer mais velha, mais alta, mais… Não sabia andar naquilo, o salto quebrou.
E se foram, lado a lado, quase roçando as mãos em cada balanço de braço, ela mancando pelo salto quebrado, numa lanchonete qualquer sentaram-se – mesinha, suco e salgadinho, sanduíche, um lanche enorme – Que fome que eu tava, só pensou, não queria parecer pobre demais, devorou, porém.
Esperou que ela comesse: – Você é linda.
Prendeu a respiração quando se lembrou, fora ainda no primário, vira um menino se masturbando na aula, pela professora, muito tentadora, um vestido curto… Até ela, que era mulher-menina, sentia calor quando a mestra se aproximava.
De volta à lanchonete, o sorriso daquele homem era cativante, tudo estava gostoso, principalmente a mortadela.
– Depois vamos comprar um sapato pra você pedir emprego. O que gostaria de fazer, de trabalhar com quê?
– Faço qualquer coisa moço, minha vida está por um fio. Tenho de cuidar da minha mãe. O senhor é muito bom. Por que esta fazendo isso por mim? Vai mesmo me comprar um sapato novo?
– Você é muito bonita, já disse – e passou-lhe a mão na cabeça.
Bendita ou maldita memória? Desta vez ela se lembrou da velha casa, meio caída, meio caiada, tinha sete anos, o pai nuzinho, a mãe tinha ido trabalhar – Saí do banho, não sabia que a menina estava lá – ele desculpou-se. Mas ela viu, e reviu infinitas vezes em sua memória, aquilo – Vai doer? Quase ia dizendo, mas se conteve, seria uma pergunta comprometedora.
Como se fosse um vidente: – Tire essa dúvida da cara, mocinha, prometo que não vou lhe machucar, só quero lhe agradar. Mas agora, vamos ao sapato.
Primeiro, aquela enorme vitrina onde costumava encostar o nariz, cobiçando a sandália… Depois lá dentro, loja enorme, muito espaço, poltronas pra esperar e provar – Escolha a que quiser, ele disse.
Saiu da loja caminhando mais leve, já com a sandália dos sonhos. Na cabeça: E agora o que será? Faço o que ele mandar, disse que não vai me machucar, é tão bom…
Estava confiante, até pegou na mão dele para atravessarem a rua. Já começava a imaginar prazeres…
Esquina chegando, o homem tirou do bolso uma nota de dez e colocou em sua mão – Toma, pra condução, gostei da sua companhia, boa sorte, adeus, ele disse. Beijou a mão da menina e se foi, desapareceu na multidão como se evaporasse.
A menina demorou a dar-se conta do que estava acontecendo, quase correu atrás dele, mas as pernas… bambas de surpresa, talvez frustração, o ônibus chegou no ponto.

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