O Golpe

Susana chegou bem cedo à Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo – reduto de estudantes socialistas e comunistas. Foi direto à cantina tomar um café para acordar de vez. Minutos depois, alguém lhe tapou os olhos por detrás.
– Só você, Igor, tem as mãos tão frias – ela adivinhou.
Igor parecia assustado, olhando pros lados, fortes rugas na testa, trêmulo, ouvira no rádio que o golpe havia mesmo acontecido. Comentou ainda que um grupo de companheiros iria se reunir naquela tarde para discutir o assunto.
– Sei que ainda não se decidiu, mas acho que chegou a hora, Suzana. Se quiser participar da nossa reunião…
A Rua Maria Antônia ficara famosa por abrigar duas faculdades que se opunham: a de filosofia da USP a de engenharia do Mackenzie, uma de cada lado da via, de cada lado da política, das ideologias.
Quando Suzana deixou a faculdade e atravessou a rua, foi assediada por um grupinho da direita que distribuíam panfletos convocando para outra reunião no auditório principal do Mackenzie, às 8 da noite. Viu-se pressionada entre dois lados que se diziam opostos. Opostos em quê? Seus debates são de baixo nível, às vezes, tinha a impressão de que ninguém sabia do que estava falando, o que estava acusando ou defendendo, pareciam fantoches mal ensaiados. Ela ainda não estava convicta de que aquelas tendências políticas eram mesmo opostas, tinha bons amigos que defendiam lados distintos… Tampouco gostava da situação de neutralidade porque era vista com reserva pelos dois lados, devia, pelo menos, inteirar-se, talvez tomar partido…
Primeiro, esteve com Igor e seu grupo. Facilmente percebeu que estavam atônitos, não esperavam que tal golpe acontecesse, não estavam preparados, pelo contrário, acreditavam estar prestes a vencer, o povo no poder, o Presidente João Goulart apoiava… Foi deposto naquele dia. Estavam perdidos, sem saber que atitude tomar, se deviam aguardar instruções superiores, talvez devessem…
À noite, ele foi à reunião do Mackenzie. Centenas de estudantes, a grande maioria de homens. Líderes se renovando no palco, vivas de vitória, brados de euforia, a palavra de ordem era contra os “comunistas comedores de criancinhas”. A gritaria fazia lembrar o pregão da bolsa de valores. Suzana sentiu-se náuseas, talvez o tom de violência nas expressões, a vibração no ar.
A surpresa maior foi quando propuseram a criação do CCC – comando de caça aos comunistas – com o objetivo de matar se fosse preciso pra defender a pátria dos seguidores dos russos. Suzana não suportou e deixou o recinto, saiu da reunião convencida de que com aquela gente violenta não devia envolver-se. A opção seria a outra gente, a gente perdida? Então optou pela “gente perdida”. Naquela mesma noite procurou Igor e tornou-se uma militante socialista. Era a noite de 1º de abril de 1964.

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