Ícaro

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Ícaro deu por si na cama, transformado em… Estava deitado de costas, tão macias que pareciam revestidas de algodão, e, ao levantar a cabeça, divisou pontas de penas brancas escapando pra fora da coberta. Intrigado, descobriu-se para ver o que era aquilo – estava deitado sobre uma camada de penas brancas.
Olhou ao redor. A blusa do pijama estava no chão, rasgada, percebeu o torso nu. Moveu-se, estranhou como se experimentasse um corpo novo. Algo nas costas… Sim, asas presas às suas costas! Assustado, se levantou num pulo, as asas se abriram. Haveria se transformado num anjo, como seria possível? Não acreditava nessas coisas, nem mesmo em Deus… Ou teria caído noutro mundo, como em “Alice no País das Maravilhas”, ou noutra dimensão onde as pessoas carregavam asas? Observou o resto do quarto, as mesmas paredes bem conhecidas, manchadas de tempo, mesmo guarda-roupas faltando uma porta, a blusa do pijama no chão, tudo real.
“Cuidado com o que desejas”, dizem. Desde que soubera a origem de seu nome, Ícaro alimentava a esperança de um dia poder voar, sobretudo na infância quando, no quintal do vizinho, pulava das altas pereiras, se ralava na queda, tentava voar como o Ícaro, da mitologia grega, que também possuía asas. Mas agora, tudo parecia um sonho, melhor voltar pra cama, esquecer… Porém, deitaria sobre as asas, saberia dobrá-las, conseguiria adormecer com a mente beirando o caos? Não.
Ouviu a mãe chamando, o café estava pronto… Mãe chamando era o que havia de mais concreto, melhor encarar a situação com frieza. Mas antes, experimentou as asas. A um comando, elas se abriram, não eram tão grandes, e, quando as fechou, as penas se encaixaram com perfeição, se ajeitaram nas costas, longas até a dobra dos joelhos. Sensação aconchegante, como se o abraçassem por detrás. Vestiu um roupão que as escondia, mas e depois, como iria pra faculdade? Imaginou-se no pátio, cercado de estudantes e professores rindo dele. De tão perturbado que estava, nem lhe ocorria a vantagem da transformação – voar como no mito grego.
A mãe chamou novamente. Ícaro olhou-se no espelho e achou que estava disfarçado. Deixou o quarto rumo à cozinha. A cada passo, sentia que as asas queriam se mover, e tinha de fazer certo esforço para mantê-las quietas. Nem tentou sentar-se à mesa, poderia quebrá-las, comeu em pé. A mãe, sensibilidade desgastada pela rotina, não percebeu no filho mudança alguma. Embora, se ela olhasse bem, veria que ele estava a ponto de explodir de espanto, indagações vazando pelos poros…
– Senta, filho. Come devagar.
– Não posso, estou atrasado, não posso perder o ônibus.
Mesmo assim, ele esticou o desjejum, ganhando tempo para resolver se iria à faculdade. Por fim, assumiu o risco – melhor rirem do roupão que das penas! Quando pisou na rua, viu que o ônibus se aproximava, tinha de apertar o passo até o ponto. Mas, então, ao correr, não conseguiu detê-las, as asas romperam as vestimentas e se abriram. Ele voou.
Fantástica, a experiência. Sobre ruas, quintais, praças, era outro mundo visto do alto. Talvez por ser um novato em questões de voo, logo se cansou, aterrissando no telhado mais próximo. O tombo foi feio. Se não fossem as asas, talvez tivesse quebrado o pescoço. Refeito, passou o dia voando e aprendendo a pousar, a diminuir o ritmo antes de descer, planar…
A noite chegou. Asas cobriam suas costas, o inverno, porém, era rigoroso. Que saudade da cama quente! E agora, voltar pra casa? Não voltara pra almoçar, nem jantar, a mãe, certamente, teria sentido falta… Mas saberia entender e recebê-lo em seus braços? Temia enfrentar a família, ser um monstro rejeitado. Pra um zoológico não queria ir. E se o tal Deus existisse mesmo, aquilo podia ser um castigo divino por ser ateu, bissexual, fumar maconha e… Sim, pode mesmo ser um castigo severo ter de andar por aí fantasiado de anjo, todo mundo debochando, vexame.
Pra onde ir, então? Estava só, não tinha um ninho, nenhum um galho que o suportasse. Pousado em cima dum muro, pesava prós e contras. Voar sozinho não era tão bom assim, além de torná-lo um estranho no próprio lar, era a questão.
Lembrou-se, então, do que seu pai sempre lhe dizia: “Vire-se!”
Aceitou o conselho do pai, optando por se adaptar à situação da melhor maneira possível. Pousou no fundo do quintal, e com a tesoura de poda que encontrou na edícula, cortou rente todas as penas que alcançou, deixando somente o que pudesse ser escondido por uma camisa ou casaco. Era como se houvesse adquirido, prematuramente, uma corcunda.
Ícaro retomou sua antiga vida de estudante, acrescentando em sua rotina uma visita semanal à edícula para aparar as asas. Nunca mais voou.

Observação: em comemoração ao centenário de Franz Kafka, autor  de “A Metamorfose”,  que inspirou este texto.

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