Shakespeare

Cesar protagonizava Hamlet no Teatro Nacional de Brasília, temporada curta, apenas um fim de semana. Quase todos os amigos que lá moravam estavam presentes na primeira noite. Como ele vivia no Rio e raramente vinha até a capital da República, esta era uma ótima oportunidade para reencontrar os amigos. Marcos e Júlia, os mais chegados, estavam logo na fila da frente e faziam questão de mostrar a admiração que sentiam pelo amigo ator, os queixos caídos.
Mais tarde, enquanto ceavam num restaurante…
– Você sabe que eu detesto Shakespeare, mas interpretado por você, até que dá pra suportar – comentou Marcos.
– Pra dizer a verdade, eu também não gosto – concordou o ator. – Coisa velha, filosofia barata, e depois, poesia dita como se fosse prosa não tá com nada. Mas eu vivo disso, tenho que aguentar.
– Sua voz continua muito bela – jogou ela, com o olhar impregnado de lembranças do que houvera entre eles anos atrás.
Juntos tinham cursado a faculdade e, já formados, trabalharam juntos em algumas peças teatrais. Certa vez, numa excursão de um espetáculo, tornaram-se mais íntimos. Aconteceu depois de uma apresentação: separados do resto do elenco, ficaram no barzinho do hotel e beberam muita tequila. Depois, apoiando-se mutuamente, subiram pra suíte dela. Cesar percebeu que ela estava um pouco nervosa, apesar do álcool.
– Que foi, Júlia, parece receosa, está com medo de mim?
– Tenho medo de não corresponder às suas expectativas.
– Bobagem. Não tenho expectativa alguma. Relaxe.
– Marcos, preciso confessar uma coisa muito pessoal. Jura que não vai rir de mim?
– Juro.
– Nunca tive um orgasmo com um homem.
– Não acredito. Você é casada, o Marcos não dá conta?
– Ele diz que já tentou de tudo, mas…
– Então esse nosso encontro virou uma missão. Prepare-se para seu primeiro gozo com um macho de verdade! – bradou Cesar.
Apesar de ser ator, uma profissão onde a maioria é gay, Cesar tinha orgulho de sua macheza e gostava de exibi-la. Conquistava todas as atrizes que trabalhavam com ele, já que enfrentava pouca concorrência dos colegas de trabalho.
– O Marcos não tem paciência – queixava-se ela, já em meio ao ato.
Paciência era com ele mesmo. Cesar adorava o ato carnal, gostava de prolongá-lo ao máximo. Por isso, naquela noite, levou de mais de uma hora, mas finalmente fez Júlia gemer, assustada consigo mesmo, com a sensação indescritível do orgasmo. A missão dele estava cumprida.
Do marido ele fora amigo inseparável na juventude, quando jogavam voleibol no mesmo time. Depois, quando Cesar resolveu estudar teatro, abandonou o esporte, o que os afastou, mas não de todo. Sempre que havia alguma encenação pública, Marcos ia prestigiar o amigo.
No restaurante, em meio à conversação, Marcos revelou algo que deixou o ator perplexo:
– Preciso lhe agradecer, Cesar. Depois daquela noite que a Júlia deu pra você naquela excursão, passou a gozar até comigo que sou apressadinho. Devo isso a você, por ter amansado a fera.
O ator nunca imaginara que Júlia fosse contar a traição que ele fizera com seu amigo, o adultério dela…
– Pode ficar tranquilo, Cesar – avisou Júlia, percebendo o mal-estar do ator. – O Marcos e eu sempre tivemos um casamento muito aberto. Depois de cada experiência que temos fora, partilhamos tudo, um com o outro.
– Bebemos demais, foi isso – Cesar ainda tentou esquivar-se.
Percebendo o incômodo que aquele assunto obviamente causava ao amigo, Marcos desviou a conversa:
– Onde está hospedado? Em que hotel.
– No Esplanada. A companhia teatral que fez a reserva.
– Que pena, não é dos melhores de Brasília. Acho que seria melhor você se hospedar em nossa casa. Fizemos um grande reforma ultimamente, temos um suíte com jacuzzi, só pra você. Que tal? Ficando lá em casa poderemos matar as saudades por mais tempo.
Cesar não teve que pensar. Não tinha gostado do hotel, e sentia-se muito bem na companhia do casal que o olhava com admiração, sonho de qualquer ator.
Na casa dos amigos, seguiram bebendo e contando casos, até que Cesar sentiu cansaço e resolveu ir pra suíte de hospedes. Quando viu a banheira não resistiu à tentação. Abriu a torneira, despiu-se e entrou na hidromassagem. Humm, gemeu gostoso, fechando os olhos, o corpo relaxando sob a pressão dos jatos d’água… Então ouviu música que vinha da sala, um rock dos tempos de juventude, e logo depois, o ranger da porta… Abriu os olhos.
Parados diante dele, também nus, Júlia e Marcos sorriam.
– Podemos entrar em suas águas? – ela sugeriu sorrindo.
Pego inteiramente de surpresa, o ator permaneceu imóvel. E agora? Que situação! Apesar de sua intensa vida sexual, nunca participara de um triângulo com outro homem.
– Vai nos deixar aqui fora esperando? – insistiu Marcos, já visivelmente excitado.
Fazia tempo que não via aqueles corpos nus. O dela ainda era quase o mesmo que ele conhecera naquela noite do primeiro orgasmo. O dele, porém, conduziu o ator de volta ao tempo da juventude, ao vestiário do clube, aos banhos prolongados depois dos jogos, quando batiam papo embaixo dos chuveiros lado a lado. Lembrou-se claramente que muitas vezes havia surpreendido o amigo olhando para seu pênis com o rabo dos olhos e disfarçando quando flagrado – Então ele esperou desde aquele tempo pra me armar esta cilada. Cachorro!
Sem esperar nenhum convite ou sinal, o casal foi entrando e se aconchegando nos braços do ator.

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