Fazendo o Pinóquio

Entrei no quarto e peguei minha vovó Lazinha mexendo naquele baú que só ela podia abrir.
– Oi vó, que está procurando? – perguntei, vi que ela tinha pegado uns papéis e estava lendo. Seria o que eu estava esperando?
– Um bom texto de teatro – ela respondeu.
Acertei. Estava ansioso. Todo ano tinha teatrinho na igreja. Naquela páscoa eu ia subir no palco pela primeira vez, e vovó estava mesmo procurando algum escrito que servisse pra mim.
– Achei! – ela disse – Você vai fazer o Pinóquio.
Pra decorar tudo demorou três semanas. Eu ainda não sabia ler, tinha seis anos, então minha avó ia lendo, e eu repetindo. Além disso, havia uma coreografia a aprender: cantar e marchar ao redor do palco, com um nariz de papelão bem comprido, contando a história do Pinóquio – um menino feito de madeira com um nariz que crescia quando contava alguma mentira. Minha avó disse que era uma estória boa para meter medo nas crianças – o medo de mentir.
Não me dava medo o Pinóquio. Gostava de imaginar o nariz dele crescendo, crescendo até bater na parede. Ficava imaginando mentiras pra ver se ele crescia… Mas na noite da apresentação, fiquei com muito medo – medo de errar, de rirem de mim – mas logo que entrei, minha avó bateu palmas e o resto do público acompanhou. Aquilo foi muito bom, me esquentou, me deu coragem, não esqueci nada.
Não sei se gostaram, mas aplaudiram. Quem adorou, com certeza, foi minha vó Lazinha que sorria, mostrava a dentadura, orgulhosa de mim.
Depois que terminei o meu número, mandaram que eu ficasse num canto, do lado do palco, porque ia começar uma peça pros adultos.
Os homens usavam vestidos compridos, andavam pra lá e pra cá falando e falando, com umas barbas coladas na cara e perucas de mulher. Um se deitou fingindo de morto. Outro mais alto veio, pôs a mão na testa dele e o “morto” se levantou de repente, bonzinho. Murmuraram: milagre!
Depois, esse mesmo homem que fez o milagre foi preso, era muito tagarela, falava sem parar como se pregasse suas palavras na cabeça das pessoas.
Então alguém apareceu, e disse diretamente ao público: E depois, na cadeia…
Daí veio uma cena bem feia. Parecia que batiam nele, mas vi que era de mentira, as chicotadas terminavam no chão e ele nem se lembrou de gritar, nem gemeu. Acho que por isso, deram uma cruz pra ele carregar sozinho, de castigo.
Aquele homem que carregava a cruz era meu tio Alarico, que também tinha grudado barba na cara e usava a peruca da minha tia. Da peruca, pingava catchup na cara dele.
Mas de repente, não sei bem o que aconteceu, acho que o homem que estava vestido de soldado, que ficava dando chicotadas na cruz, errou a direção e acertou a cabeça do meu tio. A peruca voou para a plateia.
– Uuuu! – escutei.
Meu tio Alarico era bem esquentado, por qualquer coisinha ficava bravo. Quando viu a peruca da minha tia voar pro meio do povo, ficou vermelho de raiva, pegou a cruz e deu com ela na cabeça do soldado. Coitado! Espirrou sangue de verdade.
As mulheres que assistiam à peça começaram a gritar. O pastor da igreja mandou fechar a cortina, enquanto lá dentro rolava um corre-corre. Não me deixaram ver, me tiraram dali rapidinho… Acho que teve pancadaria.
Não me lembro bem do resto, só sei que a festa acabou, e todo mundo saiu reclamando, dizendo que nunca mais deixariam meu tio Alarico subir no palco da igreja. Só falavam disso e nem se lembraram de mim, da cena que eu tinha feito, ninguém veio me dar os parabéns… Não fiquei triste, gostei de ser o Pinóquio naquela noite, todo mundo me olhando… Aprendi que para fazer teatro é preciso saber fingir, mas não imaginava que fosse tão perigoso.

 Compartilhar no Facebook

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.