Barata

O Coronel caminhava pela calçada todas as manhãs, volteava o quarteirão para exercitar as pernas. Tênis e calção, bonezinho, vestia-se de atleta apesar da enorme barriga. Numa esquina, foi surpreendido por duas mulheres mascaradas que lhe enfiaram um saco na cabeça e o empurraram para dentro de uma van, um revólver encostado na barriga.

Longa viagem, mais de hora, chácara afastada. De vez em quando, davam-lhe um soco – Pra largar de ser besta. Lá chegando, toda roupa lhe foi arrancada e o amarraram numa mesa. Cada vez que tentava falar, levava um tapa.

As mulheres se mantiveram incógnitas com máscaras carnavalescas no sorriso de Gioconda. Depois de debocharem do pequeno pênis que mais se apequenava diante de cada gracejo, elas começaram a arrancar-lhe os pelos pubianos com pinças de sobrancelhas, um a um, eram muitos, bicho peludo. Nos primeiros puxões, ele gritava, depois gemia, e por fim, suportou, apenas franzindo a cara. Melhor seria não irritá-las com gemidos, a coisa poderia piorar, além do que, em nada adiantaria gritar,  estavam num lugar deserto, ao que parecia. A depilação continuou até o púbis ficar pelado. Para completar o trabalho, a chefe, mulher mais masculina, deu-lhe um banho de esponja embebida em álcool.

– Vai arder, mas evita infecções, se gritar é ingratidão!

– Não! Não! Pelo amor de Deus, quem são vocês, que querem de mim?

– De um crápula como você, não queremos nada, apenas judiar um pouco, como você gostava de fazer com nossos companheiros, lembra?

– Vocês estão loucas, nunca judiei de ninguém…

Bofetão na cara.

– Mentiroso! E por nos chamar de loucas, vai experimentar nosso bisturi.

– Bisturi, não, pelo amor de Deus, não façam isso, pago o que quiserem.

– Suborno? Aceitamos, mas depois. Você merece o bisturi. Não tenha medo, não vamos matá-lo, apenas fazer com que sofra pelo resto de sua vida. O suborno… Vamos chamar de  indenização, de pedaladas, ressarcimento…

– Então aceitam?

– Calma! Antes, o bisturi.

Os testículos. Ali, dois cortes mais profundos mataram possíveis futuros coronéis.

O coronel desmaiou de medo e dor, foi acordado com um balde d’água.

– Está com fome? Gosta de baratas? Gostaria de comer uma?

Ele estremeceu diante da sugestão. Então, a chefe retirou-lhe o saco da cabeça. A primeira coisa que viu, foi uma barata que ela colocou diante de seus olhos. Estava bem viva, movendo as patinhas, tentando libertar-se.

– Abre a boca!

– Não, por favor, pelo amor de Deus…

– Outra vez a mesma ladainha. Ainda não sacou que esse deus não é páreo pra mim? Agora abre a boca!

– Nã…

À força, meteram a barata viva dentro da boca do coronel, e a mantiveram tapada para que o bichinho não escapasse. Um crescente horror se estampava no rosto do coronel, os olhos revirando nas órbitas, pálido como se tivesse perdido todo o sangue, sentia a barata correr de lá pra cá pelo céu da boca, procurando uma saída. Por fim, ela achou o buraco da garganta e mergulhou para se desfazer num mar de ácidos.

– Pobre barata – comentou a chefe.

O coronel tentou vomitar, mas o vômito não tinha por onde sair, a boca era mantida fechada.

– Engole o vômito! Ou quer comer outra barata, um rato vivo, talvez?

Engoliu o vômito. Depois, quando se refez, implorou: – Por quê, por quê?

– Quer mesmo saber? Pois bem. Seu nome é Carlos Alberto Brilhante Ustra, certo?

– Sim, com sabe?

– Não se lembra de mim, apagou da memória os crimes que cometeu no regime militar?

– Águas passadas, já fui perdoado pela Lei da Anistia.

– Mas a lei da vingança não perdoa.

– Só cumpria ordens, eu juro.

– Ordens? Não era você que estapeava os prisioneiros todas as manhãs por divertimento, ou aquilo também eram ordens?

– Ordens, eu juro pela minha alma.

– Que alma? Sabemos tudo sobre você, Coronel Mauricio Lopes, assassino!

Então a chefe tirou a máscara.

– Não me reconhece, coronel? Gostava de enfiar seu cassetete em mim. Lembra como eu cuspia em sua cara?

Silêncio.

A memória revirou-se no cérebro do coronel, a visão clareando, aquela voz impertinente, lembrou-se: – Dilma!?

Wikipédia:

O tenente-coronel Mauricio Lopes Lima foi também reconhecido, em relato no projeto Brasil: Nunca Mais, pela Presidenta Dilma Rousseff, como um dos seus torturadores.

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