Aprendiz de Tarado

Passava todas as tardes, voltando pra casa, de ônibus, a saia justa, apertada nas ancas. De quê trabalho vinha não sei dizer, só sei que me provocava uma vontade incrível de agarrá-la. Era do tipo que me viciei a gostar – modelos – talvez por ser recepcionista de um estúdio fotográfico. Mas essa mulher era diferente, irresistível.

Às vezes, eu ficava esperando bem na frente da parada do ônibus, para ver-lhe as coxas finas enquanto descia os degraus. Ela ajeitava a blusa quase transparente, desgrudava a alça do sutiã, agarrava a bolsa por receio de ladrões e, finalmente, jogava os longos cabelos negros de lado e ia rebolando pelo meio da calçada. Por dias, segui aquele rebolado até a casa dela, de longe, é claro, tinha receio…, na verdade, tinha medo de que ela me visse, sei lá por quê.

Ela entrava em casa e, pouco depois, abria a janela da frente. Debruçava-se pra estender no parapeito uma toalha ainda úmida do banho matinal. Então eu via os seios pequenos, morenos, redondos, querendo saltar fora, na minha direção, pra mim… Mas ela nunca me via, não olhava, parecia envolvida num sonho, mirava o céu. Eu sentia dor de tanta excitação. Depois, ela sumia e eu voltava pra casa, com a mão no bolso, já me masturbando no caminho.

Já não tinha olhos pras outras, só pensava nela: o que faria, que tipo de trabalho? Rica não era, nem tinha carro, tudo indicava que morava sozinha. De noite, dava uma passada por lá. Parece que nunca saía, a luz mutante e colorida da televisão piscava nas cortinas brancas. Devia ser uma solitária como eu. Por que uma mulher tão gostosa ficaria solitária?

Reconheço que meu cérebro já não funcionava bem, alucinado, obsessivo, alguma doença mental me atacava. Tinha idéias malucas de sequestro, até ilha deserta passava no meu filme interior.

Naquela tarde, ela desceu do ônibus de saia branca, curtíssima, o que fazia o traseiro parecer mais crescido, arrebitado, uma loucura. Vi até um pedaço da calcinha vermelha. Perseguindo a saia branca pela calçada, pensamentos malignos se apoderavam de mim. Minha vontade era de pegá-la por detrás, derrubá-la devagar e possuí-la ali mesmo, à vista de todos, no burburinho do rush.  Aproximei meus passos muito mais que de costume, e quando estava pronto pra saltar sobre ela, ouvi uma sirene. Amarelei. Ela se foi, nem a segui. Sempre amarelo quando ouço uma sirene.

A manhã estava cinzenta, um pouco fria, boa ocasião para usar minha capa preta. Esperei no ponto, rosto encoberto pra que ela não me visse, até que o ônibus chegou. Já veio lotado. Ela subiu. Um pouco atrás, eu, trêmulo, ainda receoso. De repente, num balanço do veículo, abriu-se um espaço e vi seu pescoço longo, branco, tão frágil, a poucos metros de mim. Foi a gota!

O medo passava enquanto eu era dominado por aquela força que vinha de baixo. Nem vi como, já estava atrás dela. Não queria, pensei, se encostasse ela perceberia, estava duro demais, mas meus pensamentos já não tinham nenhum efeito sobre meu corpo. Encostei. Ela nem se mexeu, porém percebi que respirou mais fundo. Então cheguei mais. Foi aí que aconteceu algo totalmente inesperado – ela me deu uma cotovelada no rosto e, para o meu espanto, ejaculei. Ela nem olhou pra trás ao bater-me, conseguiu se esgueirar, escapando de mim. Ainda bem que eu usava a salvadora capa preta que escondia minha calça encharcada do esperma derramado. Gostava de usá-la para andar de ônibus na hora do aperto.

Fiquei tão perdido que nem me lembrei do objetivo prévio daquela aventura matinal, que era: segui-la e descobrir onde trabalhava. Nem vi quando desembarcou. Naquele dia, depois daquele gozo precoce, acho que ultrapassei meus limites morais, deixei-me tomar pelo desejo.

Na manhã seguinte voltei ao ônibus, mas fiquei escondido no fundo. Consegui descer no mesmo ponto que ela. Depois de caminhar por meio quarteirão, ela entrou numa casa ilegal, de bingo. Não podia ser uma apostadora, devia trabalhar ali. Entrei. Como não tinha dinheiro pra jogar, fiquei circulando, como quem procura alguém, procurava por ela.

De repente, ela apareceu maravilhosa com um uniforme de gatinha, rabinho pendurado, cara pintada, pernas de fora. Meu corpo chacoalhou, o falo desatinado começou a dar trancos, não suportei. Antes que fizesse alguma loucura da qual certamente me arrependeria, fugi dali.

De tarde, fiquei esperando que ela descesse do ônibus e a segui até sua casa. Não tive medo, segui de perto, e ela não dava sinal de que havia me percebido. Isso me encorajou mais: está se fazendo de sonsa…

Quando ela subiu os degraus, a saia curta, as coxas… Abriu a porta, eu pulei sobre ela. Entramos na sala rolando. Já fui metendo a mão para arrancar- lhe a roupa, quando ela surpreendeu-me com um golpe de judô, jogou-me de costas e ficou sentada sobre meu ventre paralisado. Então, com um gesto bem feminino, tirou os cabelos do rosto e falou com uma voz lânguida:

–Demorou! Pensei que não fosse me pegar nunca! Está pronto?

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