A Égua Pintada

Meu haras não era dos grandes, poucos animais, porém de qualidade. Todos com pedigree de peso, alguns até premiados em exposições. Tentava estar bem documentado segundo as regras da Associação Brasileira do Cavalo Árabe, mas nem sempre isso era possível.

Anualmente, no inverno, participava do leilão de Campos do Jordão, patrocinado pelo tradicional hotel Vila Inglesa. Naquele ano, trouxe para venda apenas um animal, Belinda, uma égua jovem, muito bem domada pelo nosso treinador.

No dia do leilão, uma manhã fria de inverno, o clima estava horrível, gelando os ossos, embora os turistas estivessem ali justamente por isso. Logo que o dia amanheceu, os peões começaram a lida preparatória dos cavalos. Primeiro o banho de água fria, os equinos tremiam, alguns chegavam a ter cólicas renais, mas era tradição lavar os cavalos na manhã da apresentação.

Nem preciso dizer que não deixei darem banho na minha égua, para não estragar meus planos. Além do mais, pra que expor o animal àquele sacrifício? Mandei que a escovassem bem, que passassem flanela até o pelo brilhar, que maquiassem os olhos e o focinho, pintassem os cascos, fizessem pequenas tranças na crina… Todo o ritual de embelezamento comum em leilões.

Muitos compradores vinham antes apreciar os animais em suas baias, examinar de perto, fazer perguntas sobre eles, e assim a vendedores ficavam sabendo quais eram os interessados em comprar.

A entrada era por ordem alfabética e Belinda foi uma das primeiras a ser chamada. Sua pelagem quase negra, refletia as luzes e insinuava os melhores traços da raça árabe: o pescoço curvo de cisne, o perfil côncavo da cabeça, a garupa reta ostentando uma cauda ereta, embandeirada, que balançava em sintonia com a crina frisada. O público aplaudiu logo na entrada, e também noutros momentos quando a égua, obedecendo aos comandos do treinador, esticava o pescoço, expondo sua flexibilidade, ou quando exibia a graciosidade de seu galope de cauda erguida natural daquela raça…, cá entre nós, às duras penas apreendido.

Os lances foram se sucedendo rapidamente e Belinda foi vendida por uma soma muito acima do que eu imaginava. Ufa! Mais uma vez um cavalo me salvava de uma dificuldade. Com o dinheiro que consegui, poderia pagar minhas dívidas que não eram poucas. À noite comemorei minha empreitada com um farto jantar no restaurante do hotel, champanhe, depois, cama macia e quente. Dormi até tarde, quando fui bruscamente acordado por um telefonema da portaria.

– O sobre a égua que senhor vendeu ontem no leilão. O delegado quer lhe falar.

Joguei água na cara, estava gelada, meti uma roupa e desci ao saguão do hotel.

– Pode me acompanhar até a delegacia? – convidou-me um policial que ali me esperava.

Fiquei assustado, é claro, não imaginava ir parar numa delegacia depois de todo meu esforço…

– Sente-se – ordenou-me o delegado quando entrei em sua sala.

– Estou surpreso, delegado. Por que mandou me chamar, cometi algum crime? – perguntei com a minha melhor cara de santo.

– Exatamente. Parece que o senhor cometeu um crime. Estou aguardando a chegada da vítima, da pessoa que fez a queixa, o fazendeiro que comprou sua égua no leilão de ontem.

Estremeci. Será que descobriram? Não é possível!

Naquele momento chegou o queixoso, um homem forte, tipo fazendeiro rico, avermelhado de raiva, acho que de mim. Lembrava bem dele, pois antes do leilão, estivera na baia da minha égua mostrando-se muito interessado. Disse que tinha vindo do sul do país, especialmente para aquele leilão pra comprar a Belinda. Um mês antes, havia recebido o catálogo com as fotos dos animais que seriam ofertados. O homem havia se encantado pelo precioso pedigree da minha égua.

Quando me viu na delegacia, avançou com o peito estufado e os punhos cerrados na minha direção. Por sorte, havia um guarda perto que segurou o fazendeiro enquanto eu corria e me abrigava atrás do delegado.

Quando a ordem foi restabelecida, o delegado retomou a palavra:

– Recebi uma acusação de que o senhor vendeu uma égua falsa.

– Falsa? Eu? Posso saber quem disse que a égua é falsa? – tentei ainda me defender, na verdade apenas para adiar por mais algum tempo minha condenação. O delegado, porém, passou a bola adiante.

– Peço à vítima que esclareça o assunto.

O fazendeiro respirou fundo como que para engolir a raiva, falou pausadamente.

– Hoje de manhã trouxe um veterinário para examinar a Belinda. O belo pedigree que o senhor apresentou diz que ela tem três anos e dois meses de idade. Examinando os dentes, o veterinário descobriu que a égua que eu comprei, e que parece a Belinda, é idosa, tem, no mínimo, dez anos de vida. Não corresponde aos documentos.

Silêncio embaraçoso. Encurralado, contei parte da verdade.

– Posso explicar. Belinda morreu de cólica faz duas semanas. Ela já constava do catálogo de vendas e havia compradores interessados nela. Quis honrar meu compromisso, não quis desapontá-los.

– Então o senhor pegou uma égua parecida, mas sem documentação e a trouxe pro leilão no lugar da que morreu – concluiu o delegado.

– Vendeu gato por lebre, uma égua mestiça por uma árabe pura – esbravejou o comprador.

– Juro que a égua que eu trouxe é belíssima, embora seja apenas mestiça de árabe. Ela é muito parecida com a falecida Belinda. Juro que não fiz por mal. E depois, a égua foi vendida para reprodução e acredito que ela passará sua beleza para seus descendentes, dependendo do pai, é claro.

O fazendeiro deu um murro na mesa e já ia pular sobre mim quando o delegado o impediu.

– Por favor, doutor, acalme-se, o senhor está numa delegacia, posso prendê-lo por desacato. Sente-se. Tudo será esclarecido. O acusado já confessou que trocou os documentos.

– Negue que a égua é uma beleza pura! – ainda desafiei o fazendeiro.

– Realmente uma beleza, antes de tomar banho – ele rebateu.

Foi aí que eu me assustei – o banho.

– Que quer dizer com isso? – quis saber o delegado, perguntando ao comprador.

O homem ergueu o peito, olhou ao redor como se estivesse por cima da carniça, e contou o que sucedera. Durante o banho que, por indicação do veterinário, resolveu dar no animal naquela manhã, a égua começou a desbotar, a tinta escorrendo…

– A égua é alazã e não castanha. Foi descaradamente pintada! – gritou o fazendeiro.

Um silêncio doído. Eu não tinha como continuar negando minhas artimanhas, ou seriam crimes? Juro que só fiz aquilo pra me livrar de um credor que ameaçava minha vida.

Baixei a cabeça e aceitei a sentença. A égua falsa me foi devolvida. Também tive que devolver o pagamento da venda, fiquei devendo uma multa pesada e em dinheiro pro hotel e pro jantar caro da noite anterior.

Fui proibido de participar dos leilões do hotel Vila Inglesa para sempre.

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