Corta Fogo

A elite cultural de Manizales aguardava com curiosidade o retorno do Tuca Brasil, companhia teatral de vanguarda que duas vezes antes se apresentara naquele país trazendo novidades. Desta vez o espetáculo se denominava “Comala”, e chegava precedido de comentários maliciosos, haveria nudismo, não era para beatas. Como tudo que tem cheiro de pecado desperta interesse, naquela noite uma boa multidão de curiosos se mobilizou para chegar ao evento bem antes da hora. Os cidadãos colombianos já sabiam que a entrada no teatro seria demorada, como em qualquer outro evento cultural que ocorresse naqueles tempos em seu país.
O diretor do espetáculo tinha por hábito espiar o público entrando, ver as faces, gostava de saber para quem seu trabalho estava sendo oferecido. Como aquela gente receberia seu trabalho. Quando ele chegou ao saguão de entrada, surpresa. Estaria alucinando? Tivera um dia exaustivo, é certo, mas… Em muitos anos de teatro, jamais presenciara tal cena: o público era muito bem revistado antes de entrar, pois a maioria de homens estava armada. Algumas mulheres também traziam suas facas. Incrível! Os porteiros/policiais apreendiam revolveres e facas que eram identificados e guardados numa grande caixa de papelão ao lado da portaria. Já estava quase cheia e nem a metade do público havia entrado…
Como a cena não cabia em sua compreensão, o diretor se aproximou de um espectador que já havia entrado e perguntou o porquê daquilo. O homem, um professor de história, aproveitou a pergunta pra dar uma aulinha: “Atualmente, pelo menos quatro forças se digladiam neste país. A guerrilha socialista – as FARC –, as milícias paramilitares, o governo federal, e o famoso Pablo Escobar, senhor do tráfico, chefe do Cartel de Medellin. Nosso país vive uma guerra civil. Quem pode, anda armado…”.
O quê? Precisava reunir o grupo, contar o que ocorria. Pelo que vira no saguão, tudo poderia acontecer. Estariam correndo perigo de vida? Quê fazer, cancelar a função? Impossível, seriam massacrados ali mesmo no teatro pelo público ou pelos militares.
Levou quase duas horas para que entrassem no teatro mais de mil pessoas. Na rua, burburinho de retardatários, cambistas vendendo os últimos ingressos a preços exorbitantes, a plateia lotada. Nos bastidores, diante das circunstâncias, até que o grupo teatral estava calmo. Tiveram um dia difícil. Os funcionários do teatro aproveitaram a agitação criada pelo evento pra mostrar força numa disputa por salários que travavam contra a prefeitura local, dona do teatro. Resolveram boicotar a montagem do espetáculo, fazendo uma operação tartaruga – lentidão. O dia foi um terror, sobretudo para o diretor, um ariano rápido e apressado, mas perfeccionista, que tinha apenas aquela tarde para montar a cenografia, posicionar e focalizar as luzes de um espetáculo complexo. Gastou tempo brigando com os funcionários, dependia deles. A vontade era de empurrá-los para que andassem mais rápido. Por outro lado, pelas costas, os técnicos riam e remedavam de seu sotaque brasileiro, o que lhe aumentava a bílis no fígado. Graças ao atraso na lenta entrada do público, conseguiram terminar tudo a tempo.
Nos bastidores, antes que a peça começasse uma dúzia de policias armados postou-se nos dois lados do palco, nas coxias, fato que deixou os atores trêmulos. Como se soltar sob a mira de soldados, armas na mão? Se soltar, se desprender de sua própria personalidade para incorporar um personagem requer confiança. Entendiam que o palco era um lugar sagrado onde a censura pública não devia entrar.
O diretor foi pra cabine de comando no fundo da plateia. Fazia questão de ele mesmo operar as luzes e o som de cada apresentação, assim, comandava o ritmo do espetáculo e, ao mesmo tempo, observava as reações do público. Estariam os colombianos abertos à sua obra? E a polícia nas coxias, será que pensavam que os atores fariam algo perigoso? O único perigo seria abrir a mente de alguns, gritava dentro do cérebro, mentalmente abalado, como se atravessasse um mar revolto, conduzindo aquela barca da fantasia até o porto final.
Apesar dos soldados, a peça começou. Não se dizia uma só palavra – música original, tensos silêncios e ação. Na primeira cena, uma luz azul mostrava o palco coberto de lixo debaixo do qual, mortos renasciam, as personagens, mendigos que desenvolviam uma ação frenética, sem mímica, nem palavras. Disputavam o lixo, o poder, escravizavam uns aos outros, se matavam, retornando ao lixo, o ciclo se completando. No epílogo, qual fênix, todos renascem das cinzas inteiramente nus, e iniciam uma dança circular, câmera lenta, como se voassem.
Os corpos eram belos, a plateia hipnotizada mantinha um profundo silêncio adornado por música suave que os atores cantavam. O canto, fácil de aprender, aos poucos, ganhou a plateia. O teatro pulsava, mais de mil vozes cantando quando de repente, um fato absolutamente inesperado aconteceu: uma cortina de ferro, conhecida como corta-fogo, usada nos teatros tradicionais para impedir que algum incêndio que ocorra no palco alcance o público, desceu na boca de cena, fazendo o espetáculo desaparecer.
Mas o incêndio do palco já havia tomado o público que vociferou contra o ato repressivo. Na cabine, o diretor atingiu seu limite de tolerância física e mental. O corpo todo dolorido pelo longo dia de batalha, cabeça latejando, olhos ardendo, chorando de raiva, vomitou sobre a máquina de luzes. O vômito escorreu pelas frestas das chaves de comando, provavelmente inutilizando-as.
Nunca mais voltarão a funcionar! – praguejou contra os aparelhos de comando e abandonou a cabine vomitando por onde passava.

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