Bode Zeus

Relatos de uma “perua”

Só porque matei minha mãe, recebi uma sentença pesada demais– cinco anos sozinha numa ilha deserta. Mas deste tribunal, não movo um passo, que me levem carregada, arrastada, estuprada, qualquer ada que quiserem, não ligo.
E não é que arrastaram mesmo! Primeiro, pro barco, depois, lançada ao mar, agarrada naquela boinha mixuruca que nem dava pra fazer meus alongamentos. Cheguei exausta, é claro.
Fiquei jogada na areia nem sei quanto. Quentinha, macia, conchinha… Não, não quero lembrar… Estou sozinha, descabelada, vi quando o mar surrupiou minha bolsinha de maquiagem.
Cinco anos! Até lá estarei um caco. Quando voltar proscrita, vou ter de rodar bolsinha, mas velha? Nem protetor solar, uma miséria! Meu cabelo já está duro, me venderia por um xampu, um espelhinho, uma lixa de unha, um fio dental…
Minha mãe ia morrer mesmo, mais cedo, mais tarde, que diferença faria? Pra ela, foi bom, descansou, e pra mim também, nunca gostei de velharia – cheiro de pó-de-arroz, talco.
Pense bem, ela era viúva, feiosa, com aquela cintura que parecia carregar uma boia. Muito deselegante, além de enrugada, pele toda manchada, não conseguia combinar um vestido com os sapatos, e… tenho até vergonha de revelar… Ninguém queria levá-la pra cama, mesmo quando ofereci grana. Acha bom viver assim? Fiz-lhe um favor. Ela era crente, coitada. Quando chegou no além, não encontrou ninguém, kakaka!
Ao redor, nada, quero dizer, nenhum homem, é o fim. Já andei feito besta nesta ilha idiota, não podia dar nada mais além de cocos? Cinco anos sem um homem, não aguentaria se não fosse por Zeus, o bode da ilha.
Logo na primeira vez que o vi, no alto daquele penhasco, fiquei eletrizada. Zeus se aproximou altivo, senhor de si, cascos bífidos, chifres enormes, pontudos, um olhar malvado assenhoreando-se de mim. Nem precisou pedir… O bafo e a barbicha no cangote, surpreendente prazer.
Devo confessar, foi feroz… como eu sonhava.

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