Cheirando Cola

Mulheres empetecadas, braços dados com seus homens de gravata, expunham convincentes caras de fé adentrando a catedral. No altar e por toda a nave, outros padres ajudavam o cardeal, ostentando suas fantasias de lá pra cá. Nos primeiros bancos, uma dúzia de crianças de rua, banhadas, vestidas, treinadas para assistir aquela missa. Representavam, oficialmente, todas as crianças homenageadas naquela data – dia da criança.
Carlos, um menino morador de rua, 12 anos, animado pelo movimento, entrou na igreja e como ninguém o impedisse, caminhou direto pra escadaria do altar, atraído pelas coloridas e afeminadas estátuas de santos. Naquele instante, a celebração iniciou com o coro cantando. Uma ducha de emoções despejou sobre ele o passado, quando era bem pequeno e ainda tinha mãe. Ato contínuo, como um reflexo diante de uma situação difícil, puxou do bolso um saco de cola e deu uma cheirada.
Momento de tensão. O treinamento ministrado não fora suficiente para deter as crianças homenageadas que, uma a uma, abandonaram seus lugares para aderir à cola que, diante das câmeras, passou de mão em mão entre elas num rito que ninguém ousava interromper. Bem visível era a mudança de estado emocional que as tomava após cheirarem a cola: Suavizavam a expressão esfomeada, moviam-se com leveza, como se a droga lhes desse a sensação de integração, de pertinência, como se resgatassem uma débil lembrança dos tempos de ventre materno, quando o mundo era redondo e envolvente. Inebriados pela cola, deitados nos degraus do púlpito, brincavam com as mãos no alto como se buscassem alcançar os relevos dourados do teto de Deus.
O cardeal, cada vez mais vermelho, fingia nada ver. A plateia o imitava, só espiando pelo rabo dos olhos.
– “Vinde a mim as criancinhas…” – tentava ler a Bíblia, quando Carlos e outro menino começaram a se tocar, depois se abraçaram e se beijaram com ternura. O cardeal não conteve um acesso de tosse. Mesmo assim tentou puxar a atenção das câmeras pra si, retomando a ladainha. Quando tudo terminou, os padres tiveram que acudi-lo na sacristia com um princípio de infarto. Sua mente o condenava por um sentimento inaceitável. Em algum momento da missa, ele, que sempre vivera sob as asas douradas da igreja, invejara aquelas crianças pobre que se tocavam sem pudor.
Autoridades e convidados escaparam da igreja às pressas temendo que as câmeras os envolvessem naquele episódio.
O sacristão, em parte por solidariedade ao cardeal, em parte por qualidades neuróticas próprias, foi tomado de fúria mística. Tirou o cordão que trazia na cintura e se lançou sobre as crianças que ainda permaneciam na igreja após a missa, chicoteando tudo ao seu redor, orgulhoso de, enfim, encarnar seu personagem preferido, Jesus, expulsando os infiéis do templo de Javé.
Carlos deixou a catedral devagar. Indolente, alucinado, parecia não sentir os gritos e chibatadas, fato que aumentava o desespero do pobre sacristão que no auge do ataque histérico, bambeou, caiu ao chão e esperneou. Infelizmente, a televisão já cessara as transmissões e sua cena não foi ao ar.

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