Fios de Água

Agulha anestésica na veia, eu, despencando num escorregador aquático, desemboquei em transparências, tudo límpido. Água entrava e saia pela boca, pelo nariz, como faz o ar. Maravilhado: cardumes coloridos brincando, recifes azulados, raias sobre minha cabeça flanando quais naves alienígenas e, sensualmente estiradas na areia branca, sereias peladas ou vestidas de peixe, lindas, acenavam…
O que é bom, dura pouco, dizem os filósofos populares. Praquele momento, o dito serviu, porque logo surgirão tubarões para acabar com a alegria. Três deles, bocarras dentadas crescendo em minha direção. Queria fugir, mas não conseguia mover o corpo. Estava paralisado, talvez de medo. Nunca antes tinha passado por um sufoco tão grande: lembrei que não sabia nadar…
Se existe anjo da guarda, pode ter sido um deles que me salvou, promovendo um brusco movimento na água que me jogou num vão entre rochedos onde os brutamontes não cabiam. Mesmo assim eles ameaçaram com baforadas fétidas. Mal se foram, um peixe-espada com cara de doutor apareceu na brecha e deu-me um golpe, cortou minha pele na altura da virilha, justo onde eu tinha uma hérnia. Foi a gota… É claro que eu reclamei. Então o peixe, movendo a espada de lado, respondeu: – Se quer dar queixa, mande um telegrama.
Telegrama?
Silêncio molhado… Ali onde me encontrava, somente peixes e bichinhos pequenos conseguiam entrar. Senti segurança.
Mas o que era doce ficou amargo quando um polvo enorme meteu seus tentáculos no vão dos rochedos, ventosas em mim grudando, braços me envolvendo por todos os lados. Dois deles penetraram suas pontas pelo corte na virilha e, com fios de água, amarraram minhas fibras musculares e também costuraram a pele. Terminando seu trabalho, o polvo soltou uma tinta preta que escureceu tudo ao redor.
Quando clareou, abri os olhos – uma enfermeira sorria pra mim.

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2 Comentários

  1. Antonio Milton
    14 ago 2015

    Olá Marinho.
    Muitos bons esses seus contos.
    Gostei bastante deste aqui, achei bacana a narrativa que mostra o ponto de vista da personagem sob o efeito da anestesia. Onírico.
    Muito bem escrito.
    Legal.

    Abraço

    • Marinho
      15 ago 2015

      Salve Miltão
      Os contos que tenho escrito são provocados pela oficina de literatura que faço com a Márcia Lígia Guidin.
      Tem me ensinado.
      Abração

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