Perseguição e Assassinato do Marquês de Sade

Observações
Este texto teatral apresenta duas histórias distintas que se intercalam: momentos da vida e morte do Marquês de Sade, e o espetáculo que ele criou e dirigiu com os pacientes do hospício de Charenton, sobre a morte do revolucionário francês Jean-Paul Marat. O Marquês de Sade participa de ambas.
O pacientes permanecem em cena durante todo o tempo, reagindo à ação central.
As ações envolvendo o personagem Napoleão acontecem no proscênio e os pacientes desaparecem ao fundo na escuridão.
Esta obra foi baseada nos textos e na história do Marquês de Sade e também na peça teatral de Peter Weiss: “Perseguição e Assassinato de Jean-Paul Marat.

PERSONAGENS REALISTAS
Monsieur de Sade
Abade Coulmier
Dr. Royer-Collard
Madalena
Napoleão Bonaparte
Conselheiro de Napoleão
Buchon
Torturadores
Pacientes do Sanatório de Charenton

PERSONAGENS DO ESPETÁCULO NO HOSPÍCIO

Charlotte Corday
Jean-Paul Marat
Padre Roux
Arauto
Simone Evray
Buchon

Coro de pacientes

ESPAÇOS
Hospício/teatro de Charenton em Paris
Corte de Napoleão Bonaparte

FIGURINOS

Trajes de época para os personagens realistas
Uniformes hospitalares velhos para os pacientes

ÉPOCA

Início do século XIX.
ENTRADA DO PÚBLICO

O palco do “teatro” de Charenton é uma arena improvisada em meio às instalações do sanatório. Os pacientes estão mergulhados em seu autismo, o olhar perscrutando o interior, nus, e os figurinos que usarão usados estão espalhados pelo palco. Em sua cela, Sade escreve obsessivamente.
O público entra. Este movimento tem a duração necessária para a entrada e acomodação do público. Música de época durante tempo todo.

BASTIDORES

Som de órgão, monocórdio, monótono, exasperante ao final. No início, os pacientes despertam e iniciam a preparação de seus personagens. O Abade, Sade e Madalena circulam entre os pacientes, ajudando-os. Os pacientes se vestem, maquiam-se, ensaiam pequenas partes individuais, e vão ficando aflitos conforme se aproxima o terceiro sinal, marcado pela música. Terminam de posicionar a cenografia e desaparecem por trás de uma cortina ao final.
Pouco antes do final da música, Madalena vai até Sade que lhe entrega uns manuscritos. Ela os esconde em suas roupas. Há uma evidente cumplicidade entre eles. Sade beija-lhe as mãos. Madalena se retira sorrateiramente, atravessando a plateia e desaparecendo no fundo do auditório.

PARADA DE ENTRADA

Música de banda popular. Os pacientes entram perfilados e desenvolvem circunvoluções pela arena central, como numa apresentação circense. Por último entra o Abade que avança até o centro do proscênio.

PRÓLOGO

Abade Coulmier

Senhores e senhoras, ilustres convidados, como diretor desta instituição eu os saúdo. Sejam bem-vindos a Charenton. Somos muito gratos ao nosso ilustre residente, Monsieur de Sade, ali presente. Seu extraordinário talento criou e dirigiu este espetáculo para a reabilitação de nossos pacientes e também para nossa distração. Pedimos que sejam compreensivos. Alguns desses atores nem sabem seus nomes, mas estou certo de que darão tudo de si para o brilho da ação. Somos modernos, esclarecidos, não tratamos os pacientes com choques, muito menos com violência. Usamos terapia criativa. Deixamos que se expressem através da arte. A obra que apresentaremos esta noite mostrará, se tivermos sorte, como Jean-Paul Marat, numa banheira, encontrou-se com a morte.

APRESENTAÇÃO

Música acompanha o movimento de posicionamento de uma banheira sobre rodas trazida por Simone Evray com Marat dentro, enquanto o Abade vai para sua poltrona num canto do proscênio.

Arauto (anunciando o espetáculo no hospício)
O Assassinato de Jean-Paul Marat!
Escrito e dirigido pelo Marquês de Sade
e apresentado pelos internos no Hospício de Charenton!
Este homem é Jean-Paul Marat, símbolo vivo da revolução.
Observem seu rosto…
Nosso herói sofre na pele de uma terrível doença.
O corpo queima de febre, a mente arde de crença.
A compressa na fronte o alivia, mas só mesmo água fria
acalma a febre que o devora.

Marat – Água, água!

Arauto
Esta mulher cuida de Marat.
É Simone Evray, sua babá.
Observem seu brilho…
Ela pensa que Marat é seu filho.
Na defesa ela é muito boa,
protege a prole como uma leoa.

Roux -Viva Marat!

Coro de pacientes – Viva!
Roux – Viva a revolução!
Coro de pacientes – Viva!

Arauto
Este homem é o padre Roux, braço direito de Marat.
Vejam como é um monge feroz, turbulento…
Sua fé mudou no momento.
Trocou o glorioso Cristo
por nosso herói malvisto.
Ele… (cochichando ao público) Sinto-me na obrigação de informar que a nossa sentinela moral (refere-se ao Abade) cortou grande parte das falas do padre. Ele disse que eram muito…

Coro – Subversivas!
Roux – Liber-dade!
Coro – Liber…

Arauto
Esta mulher é Charlotte Corday (ela dorme em pé).
Do mesmo partido ela não é.
A atriz que faz essa personagem
traz a morte em sua bagagem.
Ela vive num estado de letargia e profunda depressão.
Esperamos que desperte e cumpra sua mortal missão.
Honoráveis convidados, nós, atores pacientes, pacientes atores,
vivemos em reclusão, acusados de loucura, taras e sedução…

Os pacientes gemem sensualmente, avançando em direção ao público.

Arauto
Não tenham medo. Não há perigo. Abram seus corações.
Somos apenas um reflexo de suas secretas perversões…
Aquele senhor, por exemplo (referindo-se a Sade),
vive em nosso meio há muito tempo.
Um cidadão nobre, polêmico criador de inúmeras obras…
libidinosas, pornográficas, pecaminosas, subversivas, escandalosas…

Sade – Já chega!

PRIMEIRA VISITA

Arauto (anunciando) – Primeira visita de Charlotte Corday!
Coro de pacientes – (sussurrando) – Corday… Corday… Corday…

Corday (despertando)
Jean-Paul Marat…
Preso numa banheira…
Será esta tua bandeira?
Na língua tens bom veneno.
De perto pareces pequeno… (dorme)

Coro de pacientes – Corday…Corday…Corday… (Corday desperta)
Arauto (soprando) – Teu caminho…
Corday
Teu caminho é de tempestade.
Despejas raios sobre a cidade.
Queres virar o mundo de cabeça pra baixo?
Mas pelo que vejo és tu quem está embaixo.
Vim pôr um fim ao seu processo.
Tudo faço em nome do progresso.
Vim dar trégua à humanidade.
Eu não conheço a piedade.

Corday retira o punhal que trazia entre os seios e avança em direção a Marat. Buchon agarra Simone, impedindo-a de defender Marat. O coro grita. Marat tenta fugir, cai fora da banheira, rasteja buscando abrigo em Sade, mas Corday o agarra pelo pescoço, treme o punhal no alto, pronta a desferir o golpe fatal. Sade detém seu gesto. (silêncio)

Sade – Ainda não. Lembre-se, Corday: você terá que vir três vezes até a porta de Marat, antes de matá-lo. (dirige-se ao ator que faz Jean-Paul) Marat, você não deve fugir da banheira na hora da morte, lembre-se de que é um herói.

NAPOLEÃO

Corte de Napoleão. Música de época acompanha a entrada majestosa do imperador que se encontra com seu Conselheiro, e o Dr. Collard.

Napoleão – Senhor conselheiro, posso saber o motivo de tamanha urgência em falar comigo?
Conselheiro – Majestade…
Napoleão – O que poderia ser tão importante a ponto de interromper os afazeres cotidianos de vosso imperador?
Conselheiro – Majestade. Sinto muito se criei problemas, mas creio que o motivo justifica minha ação. Tenho certeza de que vossa majestade se interessará pelo assunto. É um caso grave. Aqui está. O livro que está incendiando Paris.
Napoleão – De que se trata? Leia um pedaço pra eu ouvir.
Conselheiro – (lendo) “Uma manhã, o bispo pôs sua mão na coxa de uma donzela que veio se confessar. Santo Deus! – ela gritou – vim confessar meus pecados e não cometê-los novamente! O velho padre não lhe deu ouvidos. Ajoelhou-se atrás dela e levantou suas saias acima do quadril, expondo a pele rosada de suas nádegas… Lá, entre suas nádegas, estava um botão de rosa implorando para ser arrancado. Antes que a garota pudesse se livrar dele, o santo bispo pegou uma hóstia da comunhão…” – (comenta) o corpo de nosso senhor Jesus Cristo – (lendo) “… e o colocou no ânus da moça.” Devo continuar, majestade?
Napoleão – Vamos ouvir um pouco mais.
Conselheiro – “Enquanto tirava seu pênis debaixo da batina, o bispo murmurava uma prece em latim, invocando a benção do Senhor. E então, com muito fervor, com um tranco forte penetrou as entranhas da menina. Ela começou a gritar. Ai bispo! Ai, bispo!…” (o conselheiro se descontrola, retorcendo-se, afetado)
Napoleão – Pode parar!
Conselheiro – Perdão, majestade! Acho que fui atacado… É uma obra demoníaca. (solta o livro no chão)
Napoleão – Conselheiro, quem escreveu esse livro?
Conselheiro – Não diz aqui o nome do autor. Mas o tema obsceno do romance e o estilo maduro revelam ser esta uma nova obra do Marquês de Sade.
Napoleão – Ah, o velho marquês… Suas obras não estavam proibidas?
Conselheiro – Sade escreve sua prosa dentro de um hospício, em Charenton, e dali deve fazer chegar seus papéis às mãos de algum editor clandestino e inescrupuloso.
Napoleão – O velhote é esperto. Alguns dizem que ele é um gênio… Em todo caso, mande apreender todas as cópias. Queimaremos em praça pública, para que o povo veja.
Conselheiro – E quanto ao autor?
Napoleão – Que seja executado!
Conselheiro – Executar o Marquês de Sade?
Napoleão – Isso mesmo. Porque o espanto? Quase todo dia matamos alguém. O caso do marquês é uma novela que já se estendeu por muito tempo. Cortem a cabeça dele.
Conselheiro – Aconselho um pouco de cautela, majestade. Todos sabemos o que aconteceu com Robespierre, Danton e Marat. Foram assassinados e se tornaram os heróis da revolução, mártires adorados pelo povo. Se matar o marquês fará um novo mártir, e a história vai chamar vossa majestade de déspota sanguinário.
Napoleão – Eu sou a história.
Conselheiro – Com toda certeza, majestade. Entretanto, se me permite, matar o marquês nesse momento só faria aumentar a curiosidade dos leitores sobre suas obras. Aconselho uma solução criativa, inédita. Que tal, se ao invés de mandar matá-lo, vossa majestade mandasse curá-lo?
Napoleão – Curar o Marquês de Sade? Está querendo roubar o lugar do bobo da corte? Que piada!
Conselheiro – Eu falo sério. Napoleão será lembrado por seu espírito piedoso, por ter resgatado um pobre homem das trevas mentais. Será lembrado como Napoleão, o piedoso.
Napoleão – Isto não está me cheirando bem.
Conselheiro – Explico, majestade. Para deter o marquês, temos que assumir o controle sobre o Hospício de Charenton. Sugiro uma intervenção imperial. Tomei a liberdade de me adiantar e trouxe comigo o candidato perfeito para este trabalho. Dr. Royer-Collard, um notável cientista da mente, aqui presente. Um homem honrado, de caráter reto, inflexível diante das dificuldades. Estou certo de que ele poderá trazer Sade de volta à razão.
Collard – É uma honra estar em vossa presença, majestade. Meus colegas me chamam de antiquado e até mesmo de bárbaro. Simplesmente porque aplico um tratamento direto, forte, agressivo. Pura inveja, porque meus métodos jamais falham. Se me permite, majestade, uma opinião prévia sobre o assunto, o que falta a esse tal marquês é um pouco de disciplina.
Napoleão – Pode ser… Pelo menos no exército a disciplina funciona. O senhor já o conheceu?
Collard – Li a respeito. O homem passou a maior parte de sua vida em prisões e sanatórios. Atravessou três regimes políticos e nunca conseguiu se encaixar. Os monarquistas o prenderam, os revolucionários republicanos também. E agora, sob o seu império, conseguiu ser transferido da cadeia para o hospício de Charenton.
Napoleão – E como espera realizar esta difícil tarefa, doutor, a de curá-lo?
Collard – Não ando atrás de popularidade ou renome. Minha missão vai mais além: pegar as aberrações de Deus e tratá-los com a mesma força, e o mesmo vigor usados para treinar cães ferozes e cavalos selvagens. Pode não ser agradável, mas é um ato de misericórdia.
Napoleão – Diga-me uma coisa, com toda sinceridade: seus pacientes ficam curados?
Collard – Melhor que isso. Eles param de dar trabalho.
Napoleão – Uma resposta bem satisfatória. Pois muito bem. O doutor parece um homem firme. (decretando) Desejo que o dr…
Conselheiro (soprando) – Royer-Collard…
Napoleão – … desejo que o dr Royer-Collard leve sua habilidade e sua competência a Charenton! (antes de se retirar, Napoleão apanha o livro do chão) Vou ficar com este livro, Conselheiro. Quero examinar melhor as obras desse marquês.

Música acompanha a saída do imperador enquanto os pacientes posicionam-se para a continuação do espetáculo em Charenton.

DIÁLOGO

Arauto – (anunciando) Diálogo! Este homem, como já sabem, é Jean-Paul Marat. Aquele homem é o Marquês de Sade. Diálogo!
Marat – Diálogo? Como é possível dialogar com alguém que cultiva a arte da contradição? Alguém que insiste em rimar amor e dor, morte e vida, frio e calor… Ouça, meu caro Sade, um dia… Um dia… (esquece o texto)
Arauto (fazendo o ponto) Um dia eu li…
Marat – Um dia eu li em seus escritos imorais que a morte é o princípio de toda a vida.
Sade – A morte só existe na imaginação do homem. Somos nós quem a idealizamos. A natureza a desconhece. Mesmo a mais cruel das mortes desaparece na absoluta indiferença da natureza. Foi o homem quem atribuiu à vida um valor exagerado. A natureza contemplaria inabalável o extermínio de toda a raça humana. A mãe natureza nos impõe seu princípio fundamental, segundo o qual, o mais fraco está sempre à mercê do mais forte.
Marat – Sade! Sade! O que você chama de indiferença da natureza é a sua passividade, sua preguiça.
Sade – Sem baixarias! Você sabe muito bem que pra nós dois é tudo ou nada. Só interessam as ações extremadas.
Marat – Mas eu estou no extremo oposto ao seu. Ao silêncio da natureza eu oponho minha ação. Na indiferença universal eu descubro um sentido. Não sou uma testemunha passiva! Eu intervenho, aponto o que é falso e luto para mudar e corrigir.
Sade – Para distinguir o que é falso, o que é justo, é preciso se conhecer. Eu não me conheço. Assim que descubro alguma coisa já começo a duvidar. Não há verdades absolutas, apenas aquelas verdades, sempre mutantes, de nossa experiência pessoal.
Marat – Mentiras! As dúvidas não derrubam as muralhas da opressão. As experiências pessoais contam pouco no processo revolucionário. Para os ricos a revolução já terminou. A indústria e o comércio prosperam. Mas eu vos digo: a revolução ainda nem começou.
Coro de pacientes – Nem começou…
Marat – Companheiros! Eu vos digo: verdades absolutas existem sim! E agora vou revelar uma delas: o mais fracos escapam dos mais fortes quando se juntam. Unidos, companheiros, unidos!
Coro de pacientes – Unidos, unidos!

Pacientes se juntam e começam a se esfregar um no outro, esquecendo-se do público e da representação.

Abade – Monsieur de Sade! Monsieur de Sade! Assim não podemos continuar. Que impressão vão ter nossos convidados? O senhor nos garantiu que essa peça era terapêutica. Desse jeito nossos pacientes não vão sarar.
Sade – Já estamos intoxicados de idéias. Não conseguimos pensar livremente. Inventamos a revolução, mas ainda somos prisioneiros da cobiça. Cada um quer salvar alguma coisa do passado. Um quer salvar sua religião, outro quer manter a velha moral. Este defende seu prestígio, aquele acredita na sagrada família. Na Declaração dos Direitos Humanos legalizamos o direito de enriquecer, o que é um crime contra a natureza. Em nome da igualdade e da fraternidade, ideias, os povos se matarão fraternalmente, com armas equivalentes, raça contra raça, grupo contra grupo, homem contra homem.
Roux – Em meus exercícios espirituais, suspendi meu corpo pelos cabelos, virei minha carne do avesso e agora vejo tudo com olhos novos. Quem nos mantém prisioneiros?
Coro de pacientes – Quem nos mantém prisioneiros?
Roux (ao público) – Quem vos mantém prisioneiros?
Coro de pacientes (ao público) – Quem vos mantém prisioneiros?
Roux – Somos espíritos sadios, queremos nossa liberdade agora!
Coro de pacientes – Liber, liber…

O coro libera emoções reprimidas. Gritaria. Sade e Madalena acalmam os pacientes que, por fim, silenciam.

REPRESSÃO

Música. Aborrecidos, os pacientes interrompem a apresentação e retornam ao seu cotidiano. Madalena vai até Sade que lhe entrega novos manuscritos. Quando ela vai sair, Buchon, que sempre a está seguindo e cobiçando à distância, se aproxima e a agarra. Os manuscritos caem ao chão. O Abade intervém. Buchon solta Madalena e se afasta temeroso. Madalena beija as mãos do Abade, que luta para esconder seu interesse por ela. O Abade apanha os manuscritos caídos. Sade assiste a cena.

Abade – O que é isso, Madalena?
Madalena – Não sei. Não sei como vieram parar aqui, senhor. Parecem… manuscritos.
Abade – Madalena, Madalena… Você é uma excelente enfermeira, trata os internos com paciência e carinho, é linda e gentil, mas desobedece minhas ordens. Que devo fazer com você?
Madalena – Ahn… Me ensinar caligrafia.
Abade – Caligrafia? Seria para copiar melhor as obras do Marquês? Não entendo como uma moça tão delicada como você pode se interessar por essa pornografia.
Madalena – Tive uma infância muito difícil. Vi e continuo vendo tantas barbaridades, tanto sofrimento, que só mesmo algo muito forte, como a obra do Marquês, pode atingir minhas emoções e me fazer sentir que estou viva.
Abade – É um argumento desesperado. Você não me deixa saída. Madalena, tenho de lhe dar um último aviso. Se tornar a servir de pombo correio entre o Marquês e seu editor, serei obrigado a afastá-la de Charenton, mandá-la embora.
Madalena – Pelo amor de Deus, não faça isso comigo. Eu morreria. Sou uma pobre enfermeira, mas faço meu trabalho com gosto. O senhor pensa que é fácil manter os internos sempre limpos? Curo seus ferimentos que são frequentes, converso, brinco com eles, dou risada de suas histórias bobas, escuto seus inúteis planos de fuga… Acho que contribuo para trazer alguma alegria a esses pobres coitados… Gosto de estar aqui, gosto do que faço, gosto do…
Abade – De que mais você gosta, Madalena?
Madalena – Meu coração está preso aqui, em Charenton.
Abade – Está apaixonada? Posso saber por quem? Por aquele velho, o senhor de Sade?
Madalena – O pior cego é aquele que não quer ver.

Madalena se afasta desapontada, enquanto o Abade vai até Sade.

Sade – Boa noite, querido amigo! De longe, eu percebi que está perturbado. Acho que está apaixonado, não está, Abade?… Com toda razão. Madalena é um primor, uma potranca que vive no cio. Posso ver que você está inteiramente dominado por esse perigoso monstro chamado paixão. Dá pra perceber seu membro se agitando por baixo da batina. Será por isso que os padres usam batinas?
Abade – Sua mente doentia deturpa tudo, Marquês. Eu amo Madalena… como uma filha de Deus. O que sinto por ela é compaixão… e afeição fraternal.
Sade – Afeição fraternal… Nada tenho contra o incesto. Se deixassem, todo mundo praticaria o incesto… O que me preocupa é outra coisa. Sabia que é pecado negar seu membro viril a uma mulher, principalmente sendo ela tão bela? Depois vai ter problemas mentais e será capaz de cometer crimes impensáveis. Crimes que eu só cometeria em meus romances: pedofilia, necrofilia…
Abade – Necrofilia? Que absurdo! Está perdendo seu tempo, Marquês. Não estou disposto a me depravar, como seus leitores. E também não posso permitir que o senhor continue aliciando Madalena para seus negócios. Acabo de tirar isso dela. (devolve os escritos)
Sade – O mais fácil na vida de um artista é criar. O mais difícil é veicular seu trabalho. Vou ter de encontrar outro meio, outro pombo correio.
Abade – O senhor vai parar de escrever.
Sade – Enlouqueceu, Abade? Este lugar está abalando suas crenças? Não era a favor da arte-terapia? Sem a arte, como espera que eu venha a suportar minha ânsia expressiva? Sem a arte, como espera que eu me torne um cidadão saudável? Foi o senhor quem disse: “expurgue esses pensamentos iníquos e coloque-os no papel”. É só o que tenho feito. A literatura é para mim mais importante do que o sexo é para o senhor.
Abade – O sexo não é importante pra mim!… Escrever é uma coisa, publicar é outra. Você passou dos limites, entornou o caldo, como dizem nossos internos. Seu último livro vendeu como poucos, mas agora está sendo queimado em praça pública.
Sade – Esse é o perigo de escrever uma prosa tão incendiária.
Abade – Mas antes de ser queimado, um exemplar chegou às mãos de Napoleão.
Sade – Isso é bom! Quem sabe minhas palavras penetrem na mente de vosso imperador. Quem sabe assim ele se regenere e pare de meter o cacete nos países vizinhos. É sabido que governantes que gostam de invadir territórios alheios são impotentes na cama.
Abade – Vamos ver se mantém seu bom humor quando chegar o interventor.
Sade – Interventor?
Abade – Um doutor em doenças mentais foi nomeado por Napoleão como supervisor geral de Charenton. Ele vem para dar um jeito em você, curá-lo se possível.
Sade – Canalhas!
Abade – Por carta, o dr Collard já mandou aplicar o primeiro tratamento: proibir você de escrever. (O Abade apanha todas as penas de escrever do marquês e vai saindo) Sinto muito.
Sade – Covarde!

PORNOGRAFIA

Música. Raivoso, Sade lança ao ar os últimos manuscritos que escrevera. Os pacientes se apropriam dos textos, e começam a ler.

Paciente 1 – (lendo) “Então o professor levantou a saia de sua aluna acima da cintura. Com uma voz muito quente, disse: – Deixe-me ser o seu tutor nos caminhos do amor – E assim, ele abaixou a calcinha dela até o joelho.” – (comentando com os demais) abaixou até o joelho – “E ali, entre suas pernas, rosa como a tulipa, macia como a poupa de uma cereja…”
Paciente 2 – Você não devia estar lendo essas histórias obscenas.
Paciente 1 – Ninguém está forçando você a escutar.
Paciente 2 – Já que estou aqui, eu fico.
Paciente 1 – Então, não me interrompa. (lendo) “Então o professor olhou por baixo da saia. Fitou seu monte de Vênus, sua vagina loura que era o próprio olho de Deus.
Paciente 2 – O olho de Deus?
Paciente 1 – Isso. (lendo) “Os lábios ardentes do professor não podiam se conter. Quis arrancar com os dentes cada um daqueles pentelhos de fogo presos ao redor da estreita cratera, a porta do céu e do inferno, a obscura passagem entre dois mundos. A aluna, temendo que o professor a reprovasse…”

O paciente 3 começa a ler outro trecho.

Paciente 3 – “Conheci um militar muito famoso cujo apetite erótico poderia ser precisamente descrito como pós-mortem ou necrófilo. Frequentador habitual de cemitérios, sua conquista mais gloriosa foi uma senhora de mais de sessenta anos, que já estava morta há doze anos…”
Paciente 4 – Isto é horrível! Horrível demais! Continue.
Paciente 3 – “Apesar de sua paixão avassaladora, todo cuidado era pouco. Mesmo assim, cada vez que cavava a sepultura e encontrava o cadáver da velha amante, o estrago era muito grande. O vigor com que fazia amor com o cadáver era tanto que desencaixava os ossos da velha… Depois do ato, ele dizia satisfeito: valeu a pena cavar! ”
Coro de pacientes – Valeu a pena cavar…

SEGUNDA VISITA

Arauto – Segunda visita de Charlotte Corday!
Sade – Um instante, por favor. (aos pacientes) Antes desta cena quero lhes dirigir umas palavras. Dentro de cada uma de suas mentes frágeis, de seus corpos… desajeitados, a arte está esperando para nascer. O trabalho do verdadeiro artista não pertence a este mundo. É isto que o torna atraente. Diante da arte, as pessoas têm a oportunidade de tocar um outro universo – o mundo dos espelhos. Imaginem que a platéia está ali, projetando seus medos e preconceitos sobre vocês. É natural que estejam apreensivos. As pessoas costumam ser muito más. Não tenham medo. Enfrentem o público com coragem. Agora vamos!
Arauto – Segunda visita de Charlotte Corday!

Corday é conduzida até o local de sua cena. O paciente que faz a “porta” se coloca entre Corday e a banheira de Marat. Corday bate à “porta”.

Corday
Sou eu, Charlotte Corday. Quero ver Marat, meu amigo.
Abra Marat, preciso entrar, preciso falar contigo.
Quero te mostrar uma… jóia. (Corday acaricia um punhal que traz no peito)
Simone
Marat não tem mais amigo.
Não abro pra nenhum bandido!
Dê um passo para traz.
Queremos um pouco de paz.
Corday
Trago um documento valioso.
Nomes de traidores, uma longa lista.
Sou humilde colaboradora.
Não suporto ser mal quista.
Simone
Não se faça de santa, eu tenho vista.
Você é o demônio, a traição.
Corday
Abre, Marat. Vim trazer uma solução.
A morte é a chave de toda revolução.
Simone – Não abro não! Você não tem coração?
Corday – Não.
Simone – Não tem pena?… Então veja o estado dele.
Paciente-porta– Veja, veja.
Simone – Olha como ele se coça. A água já está vermelha de sangue. Marat não atende a mais ninguém. Quem quiser falar com ele que traga uma carta.

Paciente-porta
Endereço: Jean-Paul Marat. Hospício de Charenton. Rua da Revolução, número mil setecentos e oitenta e nove.
Corday
O que eu tenho a dizer não pode ser por escrito.
Devo estar diante dele, quero calar o seu grito.
Simone – Não abro pra nenhum maldito!
Corday
Abra, Marat, não tenha receio.
(ao público) Não vim buscar respostas.
Trago um punhal no seio.
Vou matá-lo pelas costas.

Gritaria, alvoroço dos pacientes. A “porta” foge quando Corday retira o punhal dos seios. Simone se põe no caminho. As duas lutam.

Marat – Água! Água! Água!

Enquanto Madalena e o Abade apartam a briga das mulheres, os pacientes jogam “baldes de água” sobre Marat. Circundam a banheira…

Coro de pacientes – Sangue, sangue…
Marat
O que é uma banheira de sangue?
Muito mais há de correr em suas terras para alimentar vocês.
O que é uma centena de cadáveres?
Milhões hão de morrer em suas guerras para enriquecer vocês.

Simone
Piedade! Piedade!
Cidadãos desta cidade.
Nosso herói que o povo ama
tem uma carne que se inflama.
Se não há quem por ele zele,
pode rasgar a própria pele.

Marat
Minha pele… esse ardor.
Sinto no peito um clamor.
O povo se move em minha cabeça.
O povo se espreme em meu coração.
Eu… eu sou a revolução! Eu sou a revolução!
Coro de pacientes – Eu sou a revolução…

ROUBO

Sade – Eu digo não! Sou eu a revolução. Quando estive preso na Bastilha escrevi muitas teses arrancadas da minha carne viva. Muitas vezes flagelei meu corpo por ódio às limitações do meu pensamento. Nas prisões do corpo descobri espécimes monstruosos de uma sociedade agonizante. Esta! (aponta a plateia) Construí nos mínimos detalhes os mecanismos de sua violência e libertei do meu ser todo ódio, perversão e brutalidade. Numa sociedade de crimes, arranquei de mim o criminoso para conhecer sua crueldade. Meu caminho não é reto, é sinuoso. Minha revolução não é fora, é interior. Peço que não me tachem de inovador perigoso sem antes ouvir atentamente.

Arauto – Filosofia sádica! As leis!

Sade – É um grande absurdo prescrever leis universais. Este procedimento é tão ridículo quanto o de um general que exigisse que todos os seus soldados se vestissem com uniformes do mesmo tamanho. É uma injustiça espantosa exigir que homens desiguais se curvem a leis iguais. O que convém a um não serve a outro. Como? Sim, também estou de acordo que não se podem fazer tantas leis quanto são os homens, mas as leis podem ser tão brandas, em número tão pequeno, que todos os homens, de qualquer caráter, possam facilmente se sujeitar a elas. Está demonstrado que há virtudes cuja prática é impossível a certos homens, assim como não há remédios que servem para todas as doenças. Podemos forçar um cego a discernir as cores? São vossas leis que criam os chamados criminosos. Um exemplo: o ato de roubar. Se percorrermos a Antiguidade, veremos o roubo permitido e até recompensado em todas as Repúblicas da Grécia. Outros povos viam o roubo como uma virtude guerreira. Todo mundo sabe que o ato de roubar estimula a coragem, a força, a habilidade, enfim, todas as virtudes úteis a um governo republicano como é o nosso. A função do roubo é nivelar as riquezas. Num governo cujo objetivo é a igualdade seria o roubo um grande mal? Não! Se de um lado o roubo mantém a igualdade, de outro ensina a conservar os bens. Havia um povo que não punia o ladrão, mas punia quem se deixasse roubar, a fim de ensinar-lhe a cuidar melhor de suas propriedades. Isso nos leva a reflexões mais extensas. O diabo me livre de querer aqui atacar ou destruir a lei que protege a propriedade privada, lei que a nação acaba de pronunciar na Declaração dos Direitos Humanos, mas que me seja permitido ao menos expor algumas idéias sobre a injustiça dessa lei. O espírito de uma lei que deve ser obedecida por todos os indivíduos de uma nação não deve ser o de manter uma perfeita igualdade entre os cidadãos? Outra questão. É justa a lei que ordena a quem nada possui não roubar os bens de quem tudo tem? Que interesse os pobres poderiam ter nessa lei? E por que haveis de querer que o pobre cumpra um mandamento que só é favorável a quem é rico? A lei que aprova a propriedade privada só interessa aos ricos. Nada, seguramente, é mais injusto. Aquele que prática o roubo por necessidade nada mais faz do que seguir o primeiro e o mais sábio mandamento da natureza: conservar sua própria existência a todo custo. Vou mais longe…

Abade – Não vai mais longe não! Sinto muito, mas sou obrigado a interromper esta cena. Não desejo que nossa distinta plateia pense que estamos aqui para fazer a apologia do roubo, algo que é um crime aos olhos da lei. Eu peço aos senhores e senhoras que nos desculpem. Peço ainda que se lembrem de que estamos num hospício e que esses atores são… pacientes. Para que não pensem que neste palco só narramos fatos desagradáveis vou lhes apresentar o nosso coral.

INTERVENTOR

O coro se agrupa e canta, regido pelo Abade.

Coro de pacientes
“Frére Jacques, frére Jacques
Dormez vous, dormez vous.
Sonne le matine, sonne le matine
Dim, dim, dom. Dim, dim, dom…”

Música marcial sobre canto do coro marca a chegada do Dr. Collard trazendo seus instrumentos de tortura, interrompendo o canto.

Abade – Doutor Collard! Não o esperava tão cedo. Seja bem-vindo ao nosso humilde refúgio.
Collard – Abade Coulmier! Quanto prazer! Minha nomeação pode parecer um pouco constrangedora, mas não deve ser. Considere-me um amigo. Estou aqui apenas para cumprir uma formalidade, vontade do imperador. Trouxe uns aparelhos de trabalho.
Abade – Vejo que veio bem armado. Que Deus nos proteja! O senhor é um homem da ciência e eu sou um homem de fé. Espero que Charenton possa se beneficiar de nós dois.
Collard – Como já foi informado, estou aqui para ajudá-lo na cura desses dementes, especialmente o tal Monsieur de Sade. Soube que ele pratica todos os crimes que descreve em seus livros, é verdade?
Abade – Certamente não aqui. Houve alguns incidentes em sua juventude…
Collard – Incidentes? Abade, por favor, eu li a história dele. Aos 16 anos ele violou uma empregadinha com um crucifixo. Em Marselha foi condenado por promover uma orgia com seu criado e mais quatro mulheres. As mulheres deram queixa na polícia dizendo que foram obrigadas a ingerir bombons contaminados por cantáridas. Os bombons, além de serem altamente afrodisíacos, durante o ato sexual faziam as mulheres peidarem.
Abade – Histórias que o povo conta. Excesso de imaginação do gentio. De qualquer modo, ele é hoje um homem idoso, sem forças para cometer crimes. Espero que julgue o Marquês pelo seu progresso e não pelo seu passado. Além do mais, ele tornou-se meu amigo.
Collard – Uma amizade estranha… Mas quem sou eu para me meter em sua vida particular. Abade Coulmier, por que Sade está aqui no sanatório e não na prisão?
Abade – Por influência da esposa. É muito rica.
Collard – Esposa?
Abade – A esposa dele achou que era melhor ter um marido louco do que criminoso. E depois, há muitos que consideram que seus crimes foram apenas de ordem ideológica, uma coisa mental, e que neste caso estaria melhor recluso em um sanatório.
Collard – Não compartilho dessa opinião. Tampouco quero abrir uma polêmica. Vim aqui para cooperar com o senhor. A propósito, o que fazia ainda agora com esses dementes?
Abade – Terapia através da arte, canto. Em Charenton, temos tudo o que é necessário para este trabalho. Uma biblioteca com os melhores livros que existem, aulas de música, exercícios com aquarelas, enfim todo tipo de arte.
Collard – Mas que efeito essas… amenidades tiveram, por exemplo, na mente do Marquês?
Abade – Ele já não berra nem cospe como antigamente, não insulta mais os guardas nem morde seus colegas internos. Pelo contrário, colabora para a cura dos pacientes através de nosso teatro, que ele mesmo dirige. Todas as semanas a sociedade parisiense vem a Charenton apreciar suas obras teatrais. Isso aqui fica lotado.
Collard – Sinto manifestar minha descrença em tais métodos. Já pensou em usar algo mais contundente. Poderíamos experimentar nele meus instrumentos, ou talvez usar sanguessugas em sua pele. Já experimentou chicoteá-lo?
Abade – Não acredito em nenhum tipo de violência. No entanto, contrariando minha própria vontade e seguindo suas determinações, retirei do Marquês suas penas, tintas e pergaminhos. Ele não tem mais onde escrever.
Collard – Excelente!

VINHO

Madalena vai ao encontro de Sade com um lençol e uma garrafa de vinho nas mãos. Os dois cochicham algo e saem sorrateiramente.

MARCHA TRIUNFAL

Música marcial. Imagem triunfal da Revolução Francesa. Os pacientes usam uma cama hospitalar com rodas como carreta. Colocam Marat sobre ela, em pé. Executam um desfile de rua onde cantam e puxam a carreta pela arena em círculos anti-horários. Cantam:

Coro

Marat, somos pobres nesta terra rica.
Morrer de fome não nos glorifica.
Não aguentamos mais tanta demora.
Queremos a revolução agora.

Marat é festejado pelo povo.

Sade – ( ao público) A massa andrajosa busca Marat. Rastejam por um novo redentor disposto a sofrer e a morrer por amor. Precisam de ídolos, heróis, modelos. Dependem da opinião de alguém. Mas amanhã perguntarão: Jean-Paul Marat? Quem foi Marat?

Roux – Marat, acreditamos na revolução. Se a única esperança é o paraíso, vamos criá-lo já, onde for preciso. Exigimos que abram todos os celeiros para matar a dor da fome que espreme nossos pensamentos. Exigimos que devolvam nossa terra, nossa cama. Exigimos que abram escolas no lugar das igrejas que só ensinam ilusões! Queremos é o fim da guerra, esse maldito esporte de generais. Queremos mais. Exigimos honra maior: caminhar nesse planeta com as próprias pernas, sem muletas!
Coro de pacientes – Sem muletas…

PROSTITUIÇÃO

Sade escrevera com vinho no lençol que Madalena lhe trouxera. Ela aparece com o lençol escrito e o estende no chão para que os pacientes possam ler.

Arauto – Filosofia sádica! A prostituição!

Sade

Devemos garantir a construção de espaços com toda a segurança necessária, para que o cidadão que gosta da luxúria possa se entregar a tudo que suas paixões lhe ordenarem, sem jamais se prender a nada. Locais variados, saudáveis, vastos, adequadamente mobiliados e seguros em todos os aspectos, devem ser erigidos em todas as cidades. Lá, todos os sexos, todas as idades, todas as criaturas se oferecerão aos caprichos dos libertinos que vierem desfrutá-los. Nenhuma paixão tem mais necessidade da mais ampla liberdade que o sexo, e nenhuma provavelmente é tão despótica. É durante o sexo que as pessoas gostam de comandar ou de serem comandadas, de obedecer ou serem obedecidas. Ora, se não dermos ao homem um meio secreto de exalar a dose de despotismo que a natureza pôs no fundo de seu coração, ele correrá para exercê-la sobre os objetos que o cercam, e assim ele perturbará o governo e a sociedade. Devemos apoiar as práticas sexuais que envolvem dominação e abuso. Eu vou ainda mais longe. Por mais que minhas idéias contrariem os costumes de hoje, tentarei vos convencer que a liberação de mulheres ditas honestas, mães, tias e vovós, é uma necessidade. Devemos criar casas especiais para as mulheres se entregarem à vontade, pois as mulheres são muito mais ardentes do que os homens. Devemos garantir também que as senhoras possam se satisfazer com todos os sexos e com todas as partes de seus corpos. Em primeiro lugar, com que direito pretendem subjugar a mulher? O casamento é o pior castigo que uma mulher pode sofrer: sujeitar-se a uma repressão sexual que é imprópria para seu físico e absolutamente inútil à sua honra. Libertai-vos, mulheres! Libertai-vos! Jamais um ato de posse pode ser exercido sobre um ser livre. É tão injusto possuir exclusivamente uma mulher quanto possuir escravos. Os interesses materiais, o egoísmo e até o tão valorizado amor degradam as finalidades essenciais do sexo, finalidades tão simples e tão naturais. Já é tempo das mulheres perceberem que a fragilidade e a insegurança que os homens botaram na cabeça delas é uma grande mentira. É apenas uma forma de dominação. Mulheres, levantai a cabeça do chão!

TENTAÇÃO

Collard apita. Ao seu comando, os pacientes vão retirando todos os pertences, móveis e objetos particulares do Marquês. O Abade apenas observa.

Sade – O que está fazendo, abade?
Abade – Isto é para o senhor aprender que tudo tem um limite.
Sade – Mas essas coisas são minhas.
Abade – Eram suas. Faz muitos anos que sua esposa deixou de pagar sua pensão. Agora tem os mesmos direitos que qualquer outro paciente.
Sade – Eu não sou um paciente.
Abade – Eu cansei de lhe avisar. Agora não terá mais onde escrever.
Sade – Tenho todos os demônios do inferno em minha mente. Minha única salvação é descrevê-los.
Abade – Tente ler para variar. Um escritor que produz mais do lê é um sinal de amadorismo. Tome. Comece pela Bíblia. (entrega-lhe uma) É mais bem escrita que seus manuscritos.
Sade – O livro que fala de um deus monstruoso. Um deus que deixou que pregassem o próprio filho numa cruz. Já pensou o que ele faria comigo, que nem parente dele sou? Sabe para que serve a Bíblia, Abade? O papel é macio, serve para limpar a bunda.
Abade – Suas heresias não me atingem mais.
Sade – E o senhor, está seguindo os ensinamentos do seu deus fazendo essas maldades comigo? Vou morrer de solidão. Minhas únicas companhias são meus personagens.
Abade – Prostitutas e pederastas. Ficaria melhor sem eles.
Sade – Tenho uma proposta: Madalena. Ela está apaixonada por você, e fará o que eu mandar. Ela pode lhe fazer uma visita noturna…
Abade – Cale-se. Está nos insultando, a mim e a ela, uma donzela indefesa.
Sade – Olhe, Abade, ali está. Veja os olhos dela como brilham. Aquilo é um corpo de mulher, um grande segredo. Observe seu ventre ardente, os seios úmidos sob o tecido quente. Não há outra verdade senão o corpo que nos desafia. Em treze anos de prisão aprendi que este é um mundo de corpos, plenos de uma força terrível. Essa força nos faz sonhar com os orifícios do corpo, que existem para que neles mergulhemos até o orgasmo. Abra as portas do céu, Abade! Uma noitada de prazer lhe fará muito bem. (o Abade foge) Maldito seja, Abade! Não tem noção do meu estado. Minha escrita é involuntária como os batimentos do meu coração.

INCESTO

Arauto – Filosofia sádica! O incesto!
Sade

Se percorrermos o universo, encontraremos o incesto estabelecido em toda parte. Os negros da Costa da Pimenta e do Gabão prostituem suas mulheres com os próprios filhos. No reino de Judá, o filho mais velho devia desposar a mulher de seu pai. Os povos do Chile dormiam indiferentemente com as próprias irmãs e filhas e desposavam com freqüência, de uma só vez, a mãe e a filha. Em suma, ouso assegurar que o incesto deveria ser a lei de todo governo baseado na fraternidade. Como é que homens que se dizem inteligentes chegaram ao absurdo de crer que gozar com sua mãe, irmã ou filha pudesse ser crime? Não é um abominável preconceito querer fazer de um homem um criminoso só porque ele prefere gozar com aqueles entes mais queridos? Aqueles que a natureza mais aproxima dele? Isso equivale dizer que é proibido desejar os indivíduos que a natureza mais ordena que amemos. Acusam de criminosos aqueles que obedecem às inclinações mais naturais! Isso é um absurdo. Somente os povos embrutecidos pela superstição podem acreditar que o incesto é um crime. Os filhos podem nascer aleijados? Então não tenham filhos.

CADAFALSO

Música. A cama hospitalar, como um carro fúnebre, entra trazendo Corday. Atrelados e conduzindo o carro vêm os condenados que, com movimentos coreografados, ilustram as palavras de Corday.

Corday – No cadafalso, o condenado vê mais longe do que o carrasco pode ver. Conheço o instante de separar a cabeça do corpo. Os pés e as mãos são amarrados, o pescoço nu, os cabelos cortados. A lâmina sobe sem pressa… Sua queda fatal nos abre em dois! (os condenados caem mortos) A cabeça, suspensa na mão do carrasco, ainda vive, os olhos podem ver a multidão saciada, o cérebro ainda pensa o passado…
Sade – Agora eu vejo, Marat, onde sua revolução pode levar… À morte gradual da individualidade, à auto-negação, à perda total do poder de decisão, a uma fatal sujeição ao Estado, um Estado que mede a realidade em porcentagem, sem olhar os indivíduos. Por isso me afasto, não pertenço a ninguém. E, antes de morrer quero apagar todas as minhas pegadas.
Marat – O que acontece agora ninguém pode impedir. Não é apenas vingança, é um movimento natural. Tempo de nascer ou de morrer, tempo dos maus frutos tombarem na ravina. O que acontece agora ninguém pode impedir. Não é apenas vingança, é justiça, é sina. Não fui eu quem inventou a guilhotina!

CRIME e CASTIGO

Arauto (anunciando) – Memória! Uma aula de memória para refrescar a história… Mil setecentos e oitenta e nove. Cai a Bastilha, o povo se move. Direitos humanos é a nova lei. O povo degola a cabeça do rei! Quatro anos depois… Já mataram Robespierre e Danton. Falta matar Marat, esse que ali está. Antes, herói da revolução, agora, caçado por seus irmãos. Prendam a respiração. Esta noite vamos matar o herói da revolução!
Coro de pacientes – Não!
Arauto – Esta bela mulher com um rico punhal colherá sua vida num golpe fatal.
Coro de pacientes – Não!
Roux – Tentaremos mudar, mas será tudo em vão. Que podemos fazer pra ganhar o perdão?

Coro de pacientes

Marat, somos pobres nesta terra rica.
Morrer de fome não nos glorifica.
Não aguentamos mais tanta demora.
Queremos a revolução agora!

Empolgados, agressivos, descontrolam-se. Música. Gritaria, correria. Buchon aproveita para perseguir Madalena, que tenta escapar, mas é agarrada. Debate-se. Buchon tapa sua boca para que não grite. Finalmente a asfixia. Ela morre. A agitação cessa com o grito desesperado do Abade.

Abade – Madalena! Madalena!

O Abade corre para socorrê-la, mas já é tarde. Chora sobre ela. Gradualmente, o Abade vai passando do pranto às carícias e, finalmente, tenta estuprar o cadáver. Collard apita e manda que retirem o Abade. Na cena seguinte o Abade surgirá numa camisa de força e, daí em diante, ele será apenas mais um paciente. Sade retira Madalena em seus braços, enquanto Buchon, nu, tenta copular com os muros.

HOMOSSEXUALISMO

Roux

Sócrates, declarado pelo oráculo o mais sábio dos filósofos da Terra, passava indiferentemente dos braços da bela Aspásia para os do jovem Alcebíades, e nem por isso deixava de ser a glória da Grécia. A inclinação ao homossexualismo resulta da organização da natureza, e em nada depende de uma decisão nossa. A maioria das crianças, na mais tenra idade já anuncia esse gosto. Sob todos os aspectos, a obra da natureza deve ser respeitada pelos homens. O prazer partilhado entre pessoas do mesmo sexo serve aos desígnios da natureza. Os legisladores da Grécia teriam introduzido o homossexualismo em sua República se julgassem que era prejudicial? Os maiores homens da história lhe eram propensos. Alexandre Magno, Sócrates, Platão, Da Vinci, Michelangelo, Isaac Newton, São Francisco, Jesus… enfim, os homens mais importantes de todo a história. Vemos o homossexualismo espalhado em toda parte: nos quartéis, nos monastérios, nos conventos, nos campos esportivos… Os padres, bispos e também os papas vivem cercados de coroinhas e sacristãos escolhidos pela redondez de suas nádegas ou pelo tamanho de seus membros. Por tradição da Igreja Católica, o papa tem doze serviçais íntimos. Basta de hipocrisia!

Durante a cena anterior, Sade furara os dedos e escrevera com sangue nas roupas que está usando.

Sade – Venhaa ver o que eu fiz. (todos se aproximam) Vejam o que eu escrevi em homenagem a Madalena. Meu mais novo livro. Começa no punho esquerdo e continua nas minhas costas. A frase mais longa corre por toda a extensão da minha perna e termina no meu pé esquerdo. Escrevi dois capítulos, um em cada nádega. Minha escrita vive!
Collard (aparece de repente, apitando) – Onde conseguiu essa tinta?
Sade – Tirei a tinta do seu cu.
Collard – Quem deu essa tinta pra ele? Quem deu essa tinta pra ele?
Paciente – A natureza.
Collard – Eu não estou brincando. Vão ter de me dizer ou colocarei um por um no trabalho.
Coro de pacientes – Trabalho… Naaão…
Collard – Pela última vez! Prometo que perdôo vocês desta vez. Agora digam: de onde surgiu a tinta que o Marquês usou para escrever em suas roupas?
Paciente – Das veias… É o sangue do Marquês.
Coro de pacientes – Sangue, sangue, sangue…
Collard – Coloquem o marquês nos instrumentos!

A MORTE

Arauto – Filosofia sádica! O assassinato!

Sade (preso ao instrumento de tortura)

Muitos de nós recebemos da mãe natureza impulsos destruidores. Recebemos também a inteira liberdade de atentar contra a vida uns dos outros. De todas as ofensas que o homem pode fazer a seu semelhante, o assassinato é, indubitavelmente, a mais cruel, já que lhe retira o único bem que recebeu da natureza, o único bem cuja perda é irreparável. Entretanto, várias questões aqui se apresentam. Provavelmente acharão minhas ideias um tanto fortes, mas e daí? Não adquirimos o direito de dizer tudo?… Não adquirimos o direito de dizer tudo? Eis a primeira questão: o assassinato é um crime aos olhos da natureza? Vamos aqui sem dúvida humilhar o orgulho da humanidade. Vamos rebaixar o homem ao nível de todas as outras produções da natureza. Mas o filósofo não acaricia as pequenas vaidades humanas. O que é o homem e qual é a diferença entre ele e os outros animais da natureza? Certamente nenhuma. O homem nasce, cresce, se propaga e declina como todos os animais. Assim sendo, haverá tanto mal em matar um animal quanto um homem. A diferença reside apenas nos preconceitos de nosso orgulho. Mas nada é tão absurdo quanto os preconceitos do orgulho. Encurtemos, todavia, a questão. Sei que irão concordar que é igual destruir um homem ou um animal. Provaremos a seguir que a destruição de qualquer ser que vive não é decididamente um mal. Quais são as matérias geradoras da natureza? De que são compostos os seres? Os quatro elementos que formam os seres que nascem resultam da destruição dos seres que morrem. Se todos os indivíduos fossem eternos, seria impossível para a natureza criar novas criaturas. Para a natureza, a eternidade dos seres é impossível, pois sua essência é a criação. Portanto, a destruição torna-se uma das mais importantes leis naturais. Ora, se as destruições são necessárias à natureza, se para criar ela precisa extrair os quatro elementos das massas de destruição que a morte lhe prepara, a ideia de aniquilamento que ligamos à morte deixa de ser real – não há aniquilamento passível de se constatar. Não há morte. O que chamamos “fim” de cada animal vivente não é um fim real, mas uma simples transmutação cuja base é o movimento perpétuo. De acordo com esses princípios irrefutáveis, a morte não é mais que uma mudança de forma, uma imperceptível passagem de uma existência a outra. Não há nenhum momento de inação, de repouso da matéria. O movimento de criação é contínuo. Pequenos animais se formam no instante em que um grande deixa de respirar. Uma vez admitidas tais verdades, pergunto se será possível afirmar que a destruição é um crime? Devemos admitir que quando nos entregamos à destruição, quando matamos qualquer ser vivo, a única coisa que fazemos é operar uma variação nas formas. Ora, direis, deixai a natureza agir! Mas é a natureza quem age através do homem. Não são os impulsos naturais que o homem segue quando se entrega ao homicídio? É a natureza que o aconselha. Que outra voz senão a natureza nos sugere os ódios pessoais, as vinganças, as guerras, enfim, todos esses motivos de crimes e assassinatos perpétuos? Se nossa mãe natureza nos aconselha isso tudo, é porque necessita. Já é tempo de enxergarmos o que é óbvio!

TORTURA

Música. Collard comanda os torturadores que agem sobre o marquês. Os pacientes sofrem como se as torturas estivessem sendo aplicadas neles.

Collard – Podem soltar! Agora tire suas roupas. Não terá mais nada que possa servir para escrever. Nunca mais vai propagar seu evangelho maldito. Jamais escreverá uma palavra sequer!
Sade – (com dificuldade) É o que veremos! Crianças, anotem meu último romance… A doce Madalena cuidava dos pacientes de Charenton como…
Collard – Cortem a língua dele!

Roux
O homem é um animal feroz.
Eu sou um animal feroz.
Apesar da pouca idade já cometi milhões de mortes.
A terra é totalmente coberta
por uma camada de entranhas comprimidas.
Nós, pouco sobreviventes, caminhamos sobre um lamaçal
de cadáveres debaixo de nossos pés.
Cadáveres por trás de nossos pensamentos.
Eu sou um animal feroz.
Mastigo milhões de seres, todos os dias.
Mamíferos, peixes, aves, insetos, micróbios, bactérias, vírus…

FUTURO

Corte de Napoleão.

Napoleão – Ando muito preocupado. Pressinto que meus dias como imperador estão contados. A sorte não poderá estar ao meu favor eternamente. Mais cedo o mais tarde perderei uma batalha decisiva e será meu fim. Isso me faz pensar em como a história irá tratar-me no futuro. Doutor, o senhor se lembra daquela conversa que tivemos sobre esse assunto? Foi por isso que mandei chamá-lo. Acho que fui enganado por suas promessas. O que tem a dizer em sua defesa?
Collard – Asseguro que minhas intenções foram as melhores deste mundo. Nem sempre as coisas acontecem como desejamos…
Napoleão – Parece que você teve tempo de sobra para aplicar seus infalíveis métodos. Pelo que eu soube, seus métodos se resumem numa palavra: repressão. Eu não sabia que a repressão curava doenças mentais.
Collard – Se vossa majestade me permite expressar minha opinião, Sade não era um doente mental. Era um libertino que insistia em perverter a moral e os costumes.
Napoleão – Se fosse para matá-lo, eu mesmo o teria feito de uma forma mais rápida e menos cruel. Chego a pensar que o doutor tinha algum motivo pessoal. Queria matá-lo com suas próprias mãos?
Collard – Eu não matei o marquês. Ele morreu de velhice.
Napoleão – Velhice… Tive a oportunidade de ler muitas obras que ele escreveu. Os conceitos filosóficos do Marquês de Sade podem ser utópicos, mas não posso negar que o homem era dono de uma lógica irrefutável, fato que significa lucidez… Você, doutor, o proibiu de escrever, tirou-lhe a cama e as roupas, aplicou-lhe torturas violentas e cortou-lhe a língua. Como se não bastasse, deixou o pobre velho num porão gelado em pleno inverno europeu. Pensou em algum momento que ele conseguiria sobreviver a tudo isso? Não considera que seu ato foi um assassinato premeditado?
Collard – De modo algum, majestade. É comum mandar prisioneiros para as masmorras, mesmo no inverno. Muitos morrem…
Napoleão – Soube também que, apesar de seus esforços para amordaçar a criatividade do Marquês, ele continuou escrevendo até o último momento de vida, usando as próprias fezes. É verdade?
Collard – Sim. Nós o encontramos morto e havia palavras escritas com merda nas paredes. Um cheiro horrível.
Napoleão – Se bem me lembro, mandamos o senhor para Charenton para curá-lo, sem matá-lo, a fim de evitar que eu fosse tachado de déspota sanguinário.
Collard – Não se preocupe, majestade. Nada vazou pra fora das paredes do sanatório. Noticiamos que ele tinha morrido de velhice. Todo mundo acreditou. Além disso, majestade, sua morte nos foi muito útil.
Napoleão – Posso saber como?
Collard – Aproveitando que as obras dele causavam muito interesse e vendiam muito bem, montamos uma editora dentro de Charenton. Ao invés de ficar pintando aquarelas infantis e fazendo teatro, os internos agora realizam algo útil. Trabalham na edição das obras do Marquês. Publicamos seus textos mais picantes que vendem como pão quente.
Napoleão – Como? Estão publicando as obras proibidas? E a minha proibição, como fica? De repente, com sua morte, as palavras dele deixaram de ser perigosas?
Collard – Calma, senhor. Consultei o bispo de Paris. Tivemos uma longa conversa e chegamos à conclusão que, na verdade, as obras de Sade nada mais fazem que divertir o público e até ajudam a aliviar suas tensões. É claro que não publicamos sua filosofia, esta sim, perigosa. Editamos apenas as obras pornográficas. A verdade é que nosso sanatório voltou à paz e à prosperidade.
Napoleão – Macabra ironia!
Collard – Vossa majestade será lembrada como Napoleão, o Grande. O maior estrategista bélico de todos os tempos, o imperador que levou a França ao seu apogeu. Quanto ao Marquês de Sade, será conhecido como um maníaco que pregava a violência sexual.
Napoleão – Que seu deus nos proteja! (retiram-se)

AGONIA

Marat – A febre abala meu crânio, meus pensamentos queimam… Água! água! Por que o dia escurece antes do sol se por? Por que meu corpo não sabe se gela ou se pega fogo. Meus sonhos, minha luta, onde estão?
Simone – Tudo está no lugar de sempre. É apenas uma nuvem que passa.
Roux – Em guarda, Marat, em guarda! Afine seus melhores sentidos. Sem ti estaremos perdidos.
Coro de pacientes – Perdidos…
Marat – Vozes! Essas vozes… Minha mensagem. Onde estão meus papéis? Onde estão minhas penas? Quero ditar minha mensagem ao povo.
Simone – Acorda Marat, acorda! Já não há mais povo, não há mais nada. A casa está cercada. A casa está cercada.
Marat – Por que tudo se embaça?
Simone – É uma fina fumaça… Estão queimando corpos!

Abade
Levanta Marat, chegou tua hora.
Solta tua voz!
Mesmo que a revolução dure apenas um instante,
solta tua voz como um raio lancinante
que tudo renova em sua luz.
Levanta Marat, chegou tua hora.
Marat
Antes, o que eu dizia era verdadeiro.
Por que tudo soa falso no momento derradeiro?

Música Final. Atrás de Marat, Corday ergue o punhal e desferre um golpe mortal. Ao fundo, jaz Sade, caído ao lado de uma parede onde com excrementos escreveu:

“Não foram as minhas ideias que provocaram minha desgraça.
Foram as ideias dos outros.”

Araçariguama, 8 de junho de 2005

Observação: este texto foi montado como espetáculo de formatura dos alunos da EAD (Escola de Arte Dramática da USP) sob a direção do autor.

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