Premonição

Descia a montanha, caminho estreito serpenteando entre árvores e arbustos, ar muito quente, sol de verão, o corpo tudo sentia. Apressava-se, sabedor de que lá embaixo um  lago de águas frescas o esperava, seu imediato sonho de consumo. Quanto melhor imaginava o frescor, mais seu corpo fervia. Já ouvia o marulhar de cascata, quando um som talvez humano, talvez um riso ou ganido de alegria, ressoou pela mata.

Brecou o ímpeto, ralentou a descida, silêncio cuidado, as mãos afastando a folhagem para enxergar mais longe, até que viu: ela, brincando no lago como uma criança.

Imóvel, espiando, a respiração presa, estaria nua?

Tomara que sim, desejava, os olhos focando, captando a mulher  aos pedaços – aqueles que se expunham acima da superfície da água. O que não via, facilmente imaginava, um corpo estonteante. Entre um e outro movimento dela, constatou febril: estava nua. Então, nada mais o incomodava, nem o mormaço que a umidade da mata emanava, aumentando por dentro e por fora uma quentura paralisante, um desejo entre as pernas…

Foi então que a natureza, mais contundente, interveio. Ele sentiu picadas e quando olhou, um batalhão de formigas subia por suas pernas, coçando, mordendo, ardendo… Soltou um grito e disparou em direção ao lago. Mergulhou por alguns segundos, refrescando-se. Quando veio à tona, rápido, buscou ao redor – ela havia desaparecido.

Ficou ali refrescando as picadas, muito intrigado, mente disparada: como aquela mulher tão bela, tão real, podia desaparecer assim, em poucos segundos, ou será que desmaiei, o tempo passou, e só depois caí na água… Conjecturas cruzavam sua apertada testa.

Não podia ficar ali, perdido em devaneios. Pela mesma trilha da vinda, regressou, tinha que voltar ao trabalho, emprego recente, o patrão ranzinza ficava de olho. Os pensamentos, porém, ainda se debatiam, deslindando a visão do lago e o desaparecimento repentino da beldade.

Era um jovem solitário, pobre, morava no trabalho – cama ao lado do depósito de rações. No entanto, a rusticidade da vida não lhe tirava o ar sonhador. Muitas vezes ouvia sussurros, vozes ecoando entre as folhagens, como se quisessem dizer-lhe algo. Previa tempestades quando agulhadas pareciam escapar pela sola de seus pés.

Quando chegou de volta à sede da fazenda deparou-se com um táxi estacionado na porta. O próprio patrão abria a porta e dele descia uma jovem recebida com beijos e abraços. De costas, mal podia vê-la, devia ser a filha do fazendeiro que voltava da capital, tinha ouvido falar que ela viria.

Conforme se acercou, a moça virou-se sorrindo. Ele estremeceu, as pernas bambearam, era a mesma mulher que há pouco vira no lago.

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